Rev. André Buchweitz Plamer
SOMOS FELIZES, POIS A MENSAGEM DA MORTE DE CRISTO NA CRUZ
REVELA O PODER DE DEUS PARA SALVAR
Amados irmãos em Cristo Jesus: “Fiquem alegres e felizes, pois uma grande recompensa está guardada no céu para vocês. Porque foi assim mesmo que perseguiram os profetas que viveram antes de vocês. (Mt 5.12).”
Estamos vivemos em uma época em que todos procuram felicidade. Ela é prometida em propagandas, buscada em conquistas pessoais, associada ao sucesso profissional, ao reconhecimento social, à estabilidade financeira ou mesmo a uma vida moralmente correta. Muitos se perguntam: “O que é necessário para ser feliz diante de Deus?” Outros perguntam: “O que Deus espera de nós?” E ainda outros: “Como posso ter certeza de que estou no caminho certo?” E ainda outros em grande maioria dizem: Por que estou passando por isso? Afinal de contas nunca matei nem roubei, por qual motivo não alcanço a “minha benção.”
Essas perguntas não são novas. Elas atravessam a história da fé e ecoam nas Escrituras que ouvimos hoje. O Salmo 15 começa exatamente assim: “Ó Senhor Deus, quem tem o direito de morar no teu Templo? Quem pode viver no teu monte santo?” (Sl 15.1, NTLH). Em outras palavras: quem pode estar na presença de Deus? Quem é digno? Quem realmente vive a vida que Deus aprova? Tem alguém de são consciência que pode dizer: eu vivo conforme a lei de Deus…? infelizmente, muitos pensam que são corretos perante Deus, mas esquecem-se de depositar sua vida nas mãos dele. Se nós não estivermos na presença e comunhão com Deus então está tudo errado.
Por sua vez o profeta Miqueias, em tom de julgamento, traz o povo diante de Deus e pergunta: “O Senhor já nos mostrou o que é bom, ele já disse o que exige de nós. O que ele quer é que façamos o que é direito, que amemos uns aos outros com dedicação e que vivamos em humilde obediência ao nosso Deus.” (Mq 6.8, NTLH). Já no Evangelho, Jesus sobe ao monte e proclama as bem-aventuranças, declarando felizes não os fortes, os ricos ou os poderosos, mas os pobres, os mansos, os que choram, os perseguidos. E o apóstolo Paulo, escrevendo aos coríntios, afirma algo ainda mais escandaloso: “De fato, a mensagem da morte de Cristo na cruz é loucura para os que estão se perdendo; mas para nós, que estamos sendo salvos, é o poder de Deus.” (1Co 1.18, NTLH).
À primeira vista, esses textos parecem caminhar em direções diferentes. De um lado, exigências éticas elevadas; de outro, promessas de felicidade paradoxais; e, no centro, a cruz — símbolo de vergonha, sofrimento e morte que por muitos anos não foi o primeiro símbolo de identificação entre os cristãos. O símbolo da cruz começou a ter significado para os cristãos de forma gradual, com os primeiros registros de uso pessoal remontando ao final do século II e início do século III (c. 200 d.C.), mas sua popularização e uso público como o principal emblema do cristianismo ocorreram principalmente após o século IV, impulsionados pelo imperador Constantino. No entanto, todos eles se encontram em uma mesma verdade: somos felizes não porque conseguimos cumprir a Lei perfeitamente, mas porque Deus revelou o seu poder para salvar na cruz de Cristo.
É isso que a Epifania nos mostra: Deus se revela onde menos esperamos. Ele manifesta sua glória não na força humana, mas na fraqueza; não na sabedoria do mundo, mas na loucura da cruz; não na justiça baseada em obras, mas na graça que salva pecadores.
Nesta verdade somos, então, levados novamente a pergunta fundamental do salmo 15: Quem pode estar diante de Deus? O Salmo 15 nos coloca diante de uma pergunta essencial: “Quem pode morar no teu santuário?” (Sl 15.1, NTLH). A resposta do salmo descreve uma pessoa íntegra, justa, verdadeira, que não difama, não explora o próximo, não aceita suborno e cumpre o que promete, mesmo com prejuízo próprio. É um retrato belo — e ao mesmo tempo assustador. Belo porque revela o ideal da vida que agrada a Deus. Assustador porque, se formos honestos, percebemos que nenhum de nós consegue viver assim plenamente. Todos falhamos. Todos tropeçamos em palavras, atitudes, pensamentos e omissões.
Aqui é importante nos atentarmos para o fato de que o salmo não está dizendo que essas obras compram a presença de Deus, mas está revelando o padrão da santidade divina. Diante desse padrão, somos confrontados com nossa incapacidade. O Salmo 15 não nos leva ao orgulho espiritual, mas à humildade, a autorreflexão, ao fato que a nossa realidade sem Deus é um verdadeiro caus. Ele nos mostra que, por nós mesmos, não temos como permanecer firmes diante de Deus.
Aqui já percebemos a necessidade de algo maior. Se a entrada na presença de Deus dependesse apenas da nossa integridade, estaríamos perdidos. Precisamos de alguém que cumpra perfeitamente aquilo que nós não conseguimos cumprir.
Mas então: O que Deus realmente exige? Ao lermos o texto de Miqueias 6.1-8, veremos que ele apresenta uma espécie de tribunal. Deus chama o seu povo à responsabilidade e lembra tudo o que já fez: libertou da escravidão, guiou pelo deserto, protegeu e sustentou. Diante disso, o povo pergunta: “O que é que eu levarei quando for adorar o Senhor? O que oferecerei ao Deus Altíssimo? Será que deverei apresentar a Deus bezerros de um ano para serem completamente queimados?” (Mq 6.6, NTLH). Eles sugerem sacrifícios, ofertas, até mesmo o sacrifício do primogênito, é citado no versículo 7, mas então vem a resposta clara de Deus. O senhor responde ao povo que pensa sem os olhos da fé. A resposta é:
“O Senhor já nos mostrou o que é bom, ele já disse o que exige de nós. O que ele quer é que façamos o que é direito, que amemos uns aos outros com dedicação e que vivamos em humilde obediência ao nosso Deus.” (Mq 6.8, NTLH).
A vida cristã não se trata de rituais vazios, nem de barganhas religiosas. Deus deseja uma vida moldada pela justiça, pela misericórdia e pela humildade. Mas, novamente, somos confrontados com nossa limitação. Quem pode dizer que vive sempre com justiça perfeita? Quem ama a misericórdia em todas as circunstâncias? Quem caminha humildemente diante de Deus sem buscar sua própria glória?
Novamente é preciso ficar claro que Miqueias não está ensinando um caminho de salvação por obras. Ele está denunciando a hipocrisia religiosa e revelando que a Lei de Deus não pode ser reduzida a práticas externas. O problema não está na Lei, mas em nós. A Lei revela o que Deus quer, mas não nos dá poder para cumprir. Aqui temos um divisor de águas, isto é, as regras da lei, nos mostram o que é preciso fazer, mas como não temos como resolver sozinhos então Deus dá a resolução a nós, mediante Jesus Cristo.
Assim, tanto o Salmo 15 quanto Miqueias 6 nos conduzem a um mesmo lugar: a necessidade de salvação. Eles preparam o terreno para aquilo que Deus fará de forma definitiva em Cristo. Então os medos, a incertezas terminam, pois a paz verdadeira está em Cristo Jesus.
A felicidade do cristão não está no todo mundo faz, não está no mundo, pelo contrário ela contradiz o mundo, e o Evangelho de Mateus 5.1-12, escancara essa verdade.
Quando Jesus começa o Sermão do Monte, Ele surpreende a todos. Ele declara felizes aqueles que o mundo considera fracassados: “Felizes os pobres de espírito… Felizes os que choram… Felizes os perseguidos” (Mt 5.3-10, NTLH).
Essa felicidade não depende de circunstâncias favoráveis, mas da ação de Deus. Os pobres de espírito são felizes porque reconhecem que nada têm a oferecer. Os que choram são felizes porque sabem que precisam do consolo de Deus. Os mansos, os misericordiosos, os que têm fome e sede de justiça são felizes porque dependem da promessa divina, não de seus próprios méritos. Talvez aqui caiba a pergunta e autorreflexão: Eu tenho estado feliz? Tenho reclamado mais do que devia? Como está a sua situação?
Jesus não está dizendo que a pobreza, o sofrimento ou a perseguição são bons em si mesmos. Ele está revelando que o Reino de Deus pertence àqueles que confiam nele, mesmo em meio à dor. Essa felicidade nasce da fé, não do sucesso.
Aqui fica claro que o Reino anunciado por Jesus não se baseia na lógica humana. Ele não exalta os fortes, mas os quebrantados, isto é, os que sabem que sua esperança vem do Senhor Deus que fez o Céus e a terra. Ele não glorifica os sábios segundo o mundo, mas aqueles que se colocam nas mãos de Deus.
E é exatamente neste sentido tão profundo e verdadeiro que a cruz e a mensagem de morte de Jesus é loucura para o mundo, poder de Deus para salvar. Em 1 Coríntios 1.18-31, percebemos claramente a profundidade de como o Apóstolo Paulo traz essa inversão radical ao falar da cruz em relação a lógica humana. Ele afirma: “De fato, a mensagem da morte de Cristo na cruz é loucura para os que estão se perdendo; mas para nós, que estamos sendo salvos, é o poder de Deus.” (1Co 1.18, NTLH).
A cruz escandaliza. Ela desmonta qualquer tentativa humana de alcançar a Deus por mérito próprio. Na cruz, Deus revela sua justiça e sua graça ao mesmo tempo. Cristo cumpre perfeitamente a Lei que nós não conseguimos cumprir. Ele assume o nosso pecado, nossa culpa, nossa condenação.
Paulo continua dizendo que Deus escolheu o que é fraco para envergonhar o forte, o que é desprezado para destruir o que parece importante (1Co 1.27-28). Isso significa que a nossa salvação não se baseia em quem somos ou no que fazemos, mas unicamente no que Cristo fez. Por isso, Paulo conclui: “Porém Deus uniu vocês com Cristo Jesus e fez com que Cristo seja a nossa sabedoria. E é por meio de Cristo que somos aceitos por Deus, nos tornamos o povo de Deus e somos salvos.” (1Co 1.30, NTLH). Aqui está o coração do Evangelho. A felicidade cristã nasce da cruz. É nela que Deus revela o seu poder para salvar. Não é nas bênçãos materiais que revelam o quão fiel é o cristão, mas no reconhecimento da nossa incapacidade perante a grave situação de sermos pecadores, mas também é na cruz e somente nela que enxergamos um amor incomparável, o amor de Deus que nos Salva em Cristo.
Por isso, te convido a imaginar uma pessoa tentando atravessar um rio profundo e caudaloso carregando uma mochila cheia de pedras. Cada pedra representa uma tentativa de se justificar diante de Deus: boas obras, intenções sinceras, religiosidade, esforço moral. Quanto mais ela caminha, mais afunda. As pedras, que deveriam ajudá-la, tornam-se peso.
Então alguém estende uma ponte simples de madeira. Ela parece frágil, até insuficiente. Mas é firme. A pessoa precisa fazer algo difícil: largar a mochila. Abandonar o peso da autossuficiência e confiar na ponte.
A cruz de Cristo é essa ponte. Para o mundo, ela parece fraca, inadequada, até absurda. Mas é o único caminho seguro. Quem tenta atravessar carregando seus próprios méritos afunda. Quem confia somente na cruz atravessa e vive. Por isso, a Epifania nos lembra que Deus se revela de maneira inesperada. Ele revela sua glória na cruz. Ele revela sua sabedoria naquilo que o mundo chama de loucura. Ele revela o verdadeiro caminho da felicidade não na autossuficiência, mas na fé.
O Salmo 15 e Miqueias 6 nos mostram o padrão de Deus e revelam nossa incapacidade. As bem-aventuranças nos mostram quem realmente é feliz: aquele que depende de Deus. E Paulo nos conduz ao centro de tudo: Cristo crucificado, poder de Deus para salvar.
Por isso, podemos afirmar com convicção: somos felizes, pois a mensagem da morte de Cristo na cruz revela o poder de Deus para salvar. Felizes não porque somos melhores, mas porque fomos alcançados pela graça. Felizes não porque vencemos o pecado, mas porque Cristo o venceu por nós. Felizes não porque entendemos tudo, mas porque confiamos naquele que deu a sua vida por nós. “Porque as Escrituras Sagradas dizem: “Quem crer nele não ficará desiludido.” (Rm 10.11, NTLH). Amém!

