Pela primeira vez desde 1894, o Senado Federal rejeitou uma indicação presidencial ao Supremo Tribunal Federal. Não em tempos de ditadura, não em períodos de instabilidade extrema, mas em plena democracia, no terceiro mandato de um dos presidentes que mais se vangloria de seu talento para a negociação política. Uma derrota que não pode ser explicada por azar, nem por conjunturas momentâneas. Uma derrota que tem nome, tem história e tem um endereço preciso, o Palácio do Planalto. Em Brasília, um governo que dizia ter 45 votos garantidos acordou com 34. A diferença entre o que o Planalto prometeu e o que a urna entregou diz tudo sobre o estado real desta gestão.
Para entender o que aconteceu, é preciso começar pelo personagem que mais pesou nessa equação, Davi Alcolumbre, presidente do Senado Federal e do Congresso Nacional, figura central na derrota do governo. Não foi por acaso que Alcolumbre ocupou esse papel. É um político de articulação sofisticada, que constrói maiorias nos bastidores sem alarde, que acumula capital político com paciência e o mobiliza com precisão cirúrgica quando decide usá-lo. Eleito presidente do Senado pela segunda vez em fevereiro de 2025 com uma votação esmagadora, 73 dos 81 senadores possíveis, ele detém uma influência sobre a Casa que poucos na história recente do Congresso conseguiram reunir. Essa amplitude não é coincidência. É o resultado de décadas construindo pontes entre campos opostos, de PT a PL, de governo a oposição. E foi exatamente essa rede que ele ativou contra Lula.
A irritação de Alcolumbre com o governo tem uma data precisa, novembro de 2025, quando Lula anunciou o nome de Messias para o STF sem sequer avisar o presidente do Senado. Não houve telefonema, não houve gesto protocolário, não houve a menor deferência à instituição responsável por aprovar a indicação. Alcolumbre soube pela imprensa. Para um político da sua estatura, acostumado a ser consultado e a ser parte das grandes decisões, isso não foi uma gafe. Foi uma afronta. E o presidente do Senado, como todo bom articulador, guardou a resposta para o momento certo. Além do orgulho ferido, havia uma questão objetiva, Alcolumbre defendia para a vaga o nome de Rodrigo Pacheco. Quando Lula decidiu por Messias, sem consulta, sem negociação, o presidente do Congresso se viu duplamente ignorado.
Segundo relatos que circulam com credibilidade nos bastidores do Senado, Alcolumbre atuou de forma característica, sem pedidos explícitos de voto contrário, mas com sinalizações suficientemente claras para quem conhece o idioma da política brasiliense. Procurou senadores indecisos, expôs sua avaliação contrária à indicação, deixou sua posição no ar, e em um Plenário dividido, esse tipo de sinal move votos. A Folha de S.Paulo noticiou um encontro entre Alcolumbre e o ministro Alexandre de Moraes. A oposição, segundo interlocutores do Planalto, foi contemplada no acordo em troca de apoio para enterrar a CPI do Banco Master. Política, em seu estado mais puro — e mais impiedoso para quem não soube jogar.
A sequência de equívocos do governo Lula neste episódio é tão extensa que chega a ser didática. Serve como manual do que não se deve fazer em um presidencialismo de coalizão, sistema que exige, acima de tudo, sensibilidade para as hierarquias do Congresso e disposição permanente para negociar. O nome de Messias foi anunciado em novembro de 2025. A mensagem oficial com a indicação, o documento que formalmente inicia o processo de sabatina, só chegou ao Senado em 1º de abril de 2026, mais de quatro meses depois. Quatro meses de espera, de desgaste, de resistência acumulada. O motivo da demora é, por si só, revelador, o Planalto avaliou que a rejeição ao nome era grande demais e preferiu ganhar tempo, na esperança de que a resistência erodisse. Não erodiu. Pelo contrário — cristalizou.
Durante esses meses, Messias tentou construir por conta própria a maioria que o Palácio do Planalto deveria ter garantido muito antes. Visitou senadores, inclusive da oposição. Durante a sabatina, apostou em acenos estratégicos à bancada evangélica, declarou-se “totalmente” contrário ao aborto, enalteceu a Constituição como seu “primeiro código de ética”, reforçou sua identidade religiosa. Mas o sinal mais revelador de seu isolamento veio de um detalhe que não passou despercebido, Alcolumbre, o homem mais importante do processo, só recebeu Messias para uma conversa particular poucos dias antes da sabatina. Menos de uma semana antes do voto. Essa frieza do presidente do Senado já era, antes mesmo da votação, um mau presságio que o Planalto preferiu ignorar. O governo chegou ao dia da votação afirmando ter 45 votos garantidos. Quando a urna revelou 34, ficou claro que ao menos onze senadores contabilizados como aliados votaram contra. Traições em série, em votação secreta, sem deixar rastros. A pior derrota possível para um presidente que diz dominar a arte da política.
Há ainda um terceiro ator neste enredo, cujo papel é perturbador para quem acredita na separação dos poderes. Relatos com credibilidade crescente apontam que ministros do próprio Supremo Tribunal Federal atuaram nos bastidores para barrar Messias, percebido no interior da Corte como um potencial elemento perturbador do equilíbrio interno do tribunal. Se confirmada em toda sua extensão, essa articulação levanta uma questão grave. Um nível de autoproteção institucional que merece, no mínimo, debate público sério. A rejeição de Messias foi, portanto, obra de uma coalizão improvável, o presidente do Senado, a oposição de direita, senadores do centro e, ao que tudo indica, ministros da própria Corte. Um universo tão amplo de resistência só é possível quando a candidatura encontra resistências genuínas, ou quando o governo que a apresentou perdeu a capacidade de impor sua vontade.
Nunca é demais repetir a dimensão histórica do que aconteceu. Desde a criação do Supremo Tribunal Federal, em 1890, após a Proclamação da República, apenas cinco nomes foram rejeitados pelo Senado. Todos em 1894, no conturbado governo do marechal Floriano Peixoto, num Brasil que ainda ensaiava seus primeiros passos como república. Nos 132 anos seguintes, que incluem a Era Vargas, o Estado Novo, o regime militar de 1964, a redemocratização, o impeachment de Collor, a crise de 2016 e duas eleições marcadas pela polarização extrema, nenhum presidente viu seu indicado ao STF ser barrado. Que esse marco histórico tenha ocorrido agora, no terceiro mandato de Lula, é uma ironia que a história dificilmente perdoará. Luiz Inácio Lula da Silva entrou para a política brasileira como o negociador habilidoso que sempre soube construir maiorias. Esse Lula existiu. O que vemos hoje é um presidente que não conseguiu articular votos suficientes nem dentro de sua própria base para aprovar um nome que ele mesmo escolheu para a mais importante corte do país. A derrota não é apenas política. É simbólica. E os símbolos, em política, pesam tanto quanto os fatos.
Seria tentador tratar o episódio do STF como um evento isolado, uma turbulência circunstancial sem conexão com o quadro mais amplo. Seria tentador, mas seria desonesto. O placar de 42 a 34 no Senado é o reflexo mais fiel do estado real do governo Lula a seis meses das eleições presidenciais de outubro de 2026. Os números das pesquisas de opinião são implacáveis. Levantamento do PoderData de março de 2026 mostrou que 61% dos brasileiros desaprovam o governo, a maior taxa negativa desde o início da série histórica. A aprovação chegou a meros 31%. A pesquisa Genial/Quaest de abril aponta que, em um eventual segundo turno, Flávio Bolsonaro aparece numericamente à frente de Lula: 42% a 40%. A pesquisa BTG Pactual/Nexus reforça o empate técnico. A eleição, que há pouco mais de um ano parecia caminhando para uma reeleição tranquila, tornou-se uma disputa rigorosamente aberta, e o governo sabe disso.
A oposição, antes fragmentada, encontrou em Flávio Bolsonaro um polo de aglutinação capaz de mobilizar o eleitorado conservador. E esse eleitorado, no Brasil de 2026, é majoritário. O governo responde ao desgaste com medidas de apelo imediato, discussão sobre o fim da escala 6×1, recuo na taxa sobre importações de baixo valor, a chamada “taxa das blusinhas”, que auxiliares do próprio Planalto já reconhecem nos bastidores ter gerado desgaste desproporcional. São gestos que revelam mais desespero do que estratégia. Um governo que governa para a próxima pesquisa raramente governa bem.
No campo mais amplo da democracia, há uma leitura que vai além da política miúda. O Senado Federal exerceu, nesta quarta-feira, sua prerrogativa constitucional com independência real. Não se curvou à vontade do Executivo. Não ratificou automaticamente a escolha presidencial como se fosse um carimbo institucional. Disse não. Em países onde as instituições funcionam, isso seria ordinário, apenas o sistema de freios e contrapesos em operação normal. No Brasil, onde o Congresso passou décadas capitulando diante dos presidentes em troca de cargos e emendas, foi extraordinário. O senador Rogério Marinho, líder da oposição, foi direto: “O próximo nome para o STF precisa refletir a vontade das urnas, com legitimidade, isenção e novos critérios.” A referência implícita é poderosa, se a oposição vencer em outubro — e as pesquisas hoje apontam para uma disputa em aberto, o presidente eleito poderá nomear até quatro ministros ao STF, alterando potencialmente o equilíbrio ideológico de uma Corte que, na avaliação de grande parte da direita brasileira, há muito deixou de ser apenas um tribunal.
O Brasil assiste, com uma mistura de espanto e esperança, a esse processo. Espanto diante da extensão do equívoco governamental. Esperança de que as instituições, quando pressionadas, ainda encontram forças para se afirmar. E uma certeza crescente que as pesquisas eleitorais já confirmam e que a derrota no STF apenas reforça, de que outubro de 2026 reserva ao governo Lula uma surpresa muito maior do que o placar de 42 a 34 que sacudiu o Senado nesta quarta-feira. O Senado disse não. E o Brasil, quem sabe, está ensaiando dizer o mesmo nas urnas, em outubro.
UM NÃO HISTÓRICO NUM GOVERNO EM QUEDA

