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Rogerio Reis Devisate

CÉREBROS EM EBULIÇÃO: O MAIOR EXPERIMENTO SEN CONTROLE

Rogerio Reis Devisate
Ultima atualização: 22 de março de 2026 às 07:16
Por Rogerio Reis Devisate 7 horas atrás
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Rogerio Reis Devisate Advogado. Defensor Público/RJ junto ao STF, STJ e TJ/RJ. Palestrante. Escritor. | Foto:Arquivo Pessoal.
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Acaba de ser aprovado o ECA Digital, lei federal que alvitra proteger as crianças e adolescentes de ocorrências do mundo digital.
Antes de avançar, é crível que, se os nosso corpos e mentes reagem ao estímulos recebidos, independentemente de onde venham, seria impróprio distinguir o mundo digital e o mundo real como categorias distintas. A partir daí, fica fácil perceber que tudo é verdadeiro e real para o cérebro e o corpo, quando focamos nas reações que são produzidas, como a ansiedade, o medo e a excitação.
Os aplicativos concorrem entre si para elaborar mecanismos que prendam a atenção dos usuários por mais tempo. Isso não tem relação direta com conteúdos, mas com os meios e estímulos que produzem as reações que são tão agradáveis quanto viciantes. É uma explosão de dopamina e outros hormônios, num verdadeiro caleidoscópio de cores, movimentos, imagens e sons, no qual estamos inseridos – todos – num verdadeiro laboratório global onde está sendo executado o maior experimento mundial não controlado. Fato é que os nossos cérebros estão sendo sobrecarregados e vivem em ebulição, com tudo o que se fala e um pouco mais, a partir dos caminhos traçados por algorítimos e, agora, pelo feitiço da inteligência artificial, forjando novas conexões cerebrais pelo uso e por padrões que estão além do que a natureza nos legou em séculos e séculos de evolução biológica.
Chegamos ao ponto de não conseguir nos concentrar para ler ou trabalhar como antes, apenas pelo fato de estar perto o telefone celular. A sua simples presença é um fator de desequilíbrio. A sua ausência, também! Já não lemos como antes, não nos concentramos como antes, não conversamos como antes e nem vamos ao cinema ou a shows como antes. A partir de onde nos perdemos a ponto de deixar de curtir um show que teve um ingresso caríssimo, para ficar com o telefone na mão para fazer uma postagem ao vivo?
O que está acontecendo não é aquilo que geramos aos nossos descendentes. É algo que sistemas e algorítimos os fazem desejar para ser submissos. É como as drogas ilícitas e viciantes. O mergulho digital é tão profundo que os pais e avós percebem que os seus jovens descendentes não estão presentes, mesmo estando no mesmo ambiente, na mesma casa, no mesmo cômodo. Estão em qualquer lugar, menos ali. Estão em qualquer tempo, menos no agora. No virtual, estão numa Ferrari a 300 km/h, com sensações maravilhosas de poder, vitória e velocidade, enquanto no real eles têm que conversar!
Depressão, ansiedade, raiva, medo, fome… sentimentos, sensações, experiências… estamos vendo o crescer de sofrimento, de dissonância, de desconexão com a realidade, de fuga das responsabilidades e da distorção de imagem, dos valores e dos vínculos afetivos. Estamos vendo mudanças que não sabemos controlar.
Não é uma lei que vai mudar a sociedade, embora esta esteja doente e não saiba como se autosocorrer. O vírus do algoritmo escravizante se espalha e contamina a um, a dois, a centenas e milhares de milhões de pessoas. É como uma pandemia! Todos bebem das mesmas variantes e fontes. Um padrão, se segue a outro e outro. Vamos caindo como peças de dominó. Vamos perdendo valores como nacionalidade, família, pais e trabalho e emprego. Vamos valorizando a imagem sem vínculos maiores, a futilidade da exibição, os “Ócio influencers” (título de artigo que publicamos na imprensa, em 23.7.2022) e transformando o suor do trabalho, a dedicação por progresso pessoal, o esforço para estudar, prosperar e pegar ônibus em algo simplesmente odioso. O tangível está sendo substituído pelo intangível.
Paralelamente, estamos negando aos nossos jovens e crianças a oportunidade de experimentar o tato, o olfato, o correr e o andar e os pequenos tombos quando se aprende a testar limites. Os smartphones transformaram as brincadeiras tradicionais em coisas chatas e ultrapassadas. Isso se reflete em algo muito além do ato de brincar. Afeta a construção da responsabilidade pessoal e coletiva e da empatia, questões que envolvem experiências práticas e vivenciadas e não teorias e conceitos decorados.
A partir do momento em que as oportunidades de experiências coletivas de aprendizado em brincadeiras e atividades vao cedendo lugar a uma horinha no play ground ou em tempo em academias, jogos de vôlei ou futebol, estamos transformando, sem perceber, o que deveria ser a maior naturalidade de convívio e aprendizado em momentos de laboratório. Nos esportes modernos, como nos antigos jogos e disputas, desenvolviam-se habilidades e aceitava-se derrotas para os melhores lutadores ou os mais hábeis cavaleiros ou pescadores ou músicos. Com menos vivências nestes campos, os mais jovens se frustram por qualquer coisa e menos se autotreinaram em sentir compaixão, empatia e respeito por si ou pelos outros, em situações de experimento, de sorte que se frustram muitíssimo quando se deparam com situações outras no cotidiano das suas vidas.
O tédio parece imperar quando a bateria acaba… quando se tem que conversar… estudar matérias do currículo escolar… até quando a bola rola e chega aos pés de alguns. Que tédio, que perda de sentido, que desconexão com o mundo… As emoções ficam à flor da pele e descontroladas. O cognitivo fica confuso. Qual padrão é o mais legal: o de casa ou o da Ferrari a 300km/h?
Como fica a reação à autoridade? Ao limite imposto pelas leis? O respeito à lei do silêncio e às convenções sociais? Mentes não habituadas à autoridade e à regras tendem a buscar soluções mais flexíveis e satisfatórias ao seu ego. Atuam com padrões mais egoístas e autocentrados, algo próximo aos narcisistas. Passam a não se importar com o outro e a não se sentir responsáveis ao que causam às demais pessoas. Agem impulsivamente e tendem a se ocultar por trás das telas, algo como um “tratamento de silêncio narcisista” misturado com o comportamento do avestruz que esconde a cabeça num burado. Isso não produz solução para nada, nem pessoal, nem familiar ou social. No mínimo cria desvirtuação num ambiente adoecido e coletivo de conformidade e de pasteurização do comportamento. Cria uma massa mais uníssona e controlável, algo que o Cardeal Richelieu teria adorado, para facilitar o exercício do poder dominante sobre as massas.
Todavia, a experiência das leis que venham a querer criar comportamentos nos ensina que há uma tendência à burla, se não se construiu, antes, um veículo de convencimento pela conscientização da sociedade. Assim, urge que se façam campanhas sobre a importância da lei nova e da participação consciente dos pais e familiares – para que não caiam na armadilha da permissão ao uso de jogos on line e aplicativos aos filhos menores, apenas para ter um pouco de tranquilidade em casa. Isso é como uma faca de dois gumes, que tende a fazer o problema aumentar.
Hoje, 19 de março de 2026, apenas dois dias após a nova lei do ECA Digital, em 17 de março, já se noticiou que duas grandes Big Techs anunciam que não mais atuarão no Brasil. O impacto da nova lei, portanto, se faz sentir de imediato. Contudo, é crível que este novo marco legal traz o desafio de um importante avanço e de nova prática social, contexto muito além da simples introdução da nova norma, que precisa “pegar” também no seio das famílias, que são a sementeira da República.

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Rogerio Reis Devisate 22 de março de 2026 22 de março de 2026
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