Escrevi um artigo, há um tempo, intitulado “Quando a moda é arte?”. Foi em fevereiro, para ser mais precisa, quando acontecia um burburinho sobre a relação entre os dois campos, por causa da divulgação do tema do Baile do MET deste ano: moda é arte. Recebo essa pergunta sempre, há um bom tempo, porque estudo essa relação há anos.
Curioso, no entanto, como tenho visto essa indagação com mais frequência agora, nas redes sociais, não só por causa do tema do evento, mas porque estamos vendo a moda perder, cada vez mais, o seu sentido original. A moda está sendo, pouco a pouco, desconectada do que se propunha, o que nos confunde e nos faz pensar na arte como algo que está ainda mais longe da moda.
Pulando todas as explicações, porque já as fiz no artigo mencionado, queria apenas fazer algumas considerações sobre o que famosos usaram no evento anual de arrecadação de fundos para o Costume Institute do Metropolitan Museum of Art de Nova York, que é realizado sempre na primeira segunda-feira de maio e marca a abertura da exposição anual de moda do Museu.
Aparentemente, para algumas pessoas, moda pode ser arte quando a roupa dialoga com a arte de qualquer forma, em qualquer esfera, como, por exemplo, quando estampamos um quadro em um vestido. Eu não concordo, pois acho que, para a moda ser arte, ela precisa falar algo a mais, carregar atribuições próprias sobre alguma questão, ser uma expressão artística que gera embate, debate, comunicação, narrativa, que dê forma e tridimensionalidade para ideias e conceitos, criando identidades e expressando a subjetividade humana.
A gala é bem exclusiva e normalmente conta com looks bem elaborados e grandiosos. Dessa vez, apesar do tema permitir coisas criativas e inventivas, achei a maioria das produções muito simples e distante da proposta. Por estudar moda e arte, passei a esperar bem mais dos looks dos famosos neste ano, desde a divulgação do tema.
Cinco, contudo, me chamaram a atenção e, por falar nisso, queria explicar um pouco sobre os meus looks favoritos, com base nas referências usadas e na execução de cada um. Acredito que um bom designer é o que consegue se apropriar das referências de uma maneira muito inteligente e atribuir o seu olhar, gerando algo único, com a sua essência.
A começar pelo da Madonna, vestindo Saint Laurent: era como uma encenação performática sobre misticismo. Ela surgiu envolta por uma capa translúcida carregada por sete acompanhantes, criando uma figura fantasmagórica, quase como uma bruxa. A roupa preta por baixo da capa não era nada simples e o chapéu apresentava um navio em miniatura, que funcionava como uma linguagem simbólica e sinalizava que moda pode ser muito mais do que “só roupa”.
A inspiração foi um fragmento da obra A Tentação de Santo Antônio, de 1945, da artista surrealista Leonora Carrington, que remete à iconografia de Santo Antônio sendo confrontado por figuras simbólicas e perturbadoras. Criaturas híbridas e fantasmagóricas são retratadas no quadro e surgem como uma representação da tentação e do ascetismo, indicando a batalha interna entre a aspiração espiritual e o desejo mundano.
A marca viu no tema uma possibilidade de fugir da lógica visual que normalmente é vista no red carpet, investindo em algo surreal, escultórico e dramático, com texturas diferentes, múltiplos elementos e uma presença ritualística.
Emma Chamberlain usou Mugler: um vestido pintado à mão, com pinceladas pesadas e espessas. Claramente tiveram como referência o estilo pictórico de artistas expressionistas, como Van Gogh e Munch. A ideia provavelmente era de que o vestido fosse uma pintura de verdade, então as pinceladas expressionistas foram feitas diretamente no tecido por uma artista chamada Anna Deller-Yee, que trabalhou com cerca de 30 cores e fez toda a pintura em 40 horas.
Existe uma referência não só no expressionismo, mas no surrealismo, como em Salvador Dali: o vestido não se comporta como uma obra de arte qualquer, mas como uma pintura derretida, que se desmancha, que se prolonga, escurecendo ao tocar o chão.
Além disso, diria que o vestido ainda faz uma alusão ao grotesco, ao fantasmagórico, por causa das mangas alongadas que parecem uma continuação dos braços e das unhas de Emma.
Kendall Jenner vestiu Gap Studio por Zac Posen e teve como referência a escultura grega Victória de Samotrácia, do período helenístico (século II a.C.). A equipe de estilo controlou muito bem o caimento do tecido para que ficasse no formato perfeito, o que permitiu um efeito incrível. Moldaram o tecido e o manipularam de forma escultórica, para simular a textura da pedra da escultura de referência. O resultado foi um efeito de movimento, como se o vestido estivesse sendo atravessado pelo vento, criando uma tensão que também aparece na escultura.
Ela tinha uma asa que acompanhava o vestido e fechava o look com chave de ouro, uma referência perfeita à estátua. Porém, a asa não foi usada no tapete vermelho, ficando apenas nas fotos do designer e dela mesma.
A Rachel Zegler vestiu Prabal Gurung: um vestido branco com fechamento típico de espartilho atrás e uma venda no rosto, que cobria os seus olhos. A referência deles foi a obra A Execução de Lady Jane Grey”, de 1833, do artista Paul Delaroche. A obra retrata os momentos finais da rainha Jane Grey, cujo reinado durou apenas nove dias.
A cena da obra mostra Jane já vendada e despida das suas vestes externas, guiada até o cadafalso, enquanto as suas damas de companhia reagem à dor: uma ao fundo, sentada com as roupas da rainha deposta no colo; a outra em pé, de costas para a rainha, virada para a parede, incapaz de assistir o que vai acontecer em breve.
Kylie Jenner, assim como a irmã, também se inspirou em uma escultura grega da era helenística: Vênus de Milo, escultura grega que representa a deusa do amor, da beleza, da fertilidade e da prosperidade. No entanto, houve uma adaptação para que, além de se parecer com a roupa da estátua, o vestido se parecesse com um corpo sendo vestido.
O tecido na parte superior aparece como uma segunda pele e a saia é retratada como na referência, mas adaptada para parecer um vestido que ainda não subiu por completo no corpo de Kylie, aparecendo o avesso, caído na frente.
A tensão entre as ideias mostra como o clássico e o contemporâneo podem se relacionar e como o corpo, aqui, cria um efeito que transita entre o estático e o vivo. Muito além disso, esses exemplos nos faz acreditar que a moda pode ser pensada com referências que vão além do convencional. É quando saímos da caixinha que atingimos um lugar diferente, novo, inexplorado e muito mais interessante. Esses foram apenas alguns dos bons looks que apareceram no MET Gala de 2026. Gosto de olhar para esses e pensar que a moda vai sempre poder ir muito além.
Quando a moda faz arte ao se vestir de arte

