O vento chegou de repente. Em pouco tempo, o Rio de Janeiro teve árvores caídas, casas destelhadas, ruas interditadas, bairros sem energia elétrica e uma população assustada com a força do fenômeno. O vendaval alterou a rotina da cidade, provocou transtornos e deixou marcas visíveis por onde passou. Para surpresa de muitos, não veio acompanhado de chuva.
Especialistas alertam que eventos climáticos extremos podem se tornar mais frequentes e intensos, em um cenário influenciado por mudanças climáticas e pelos efeitos do El Niño. Talvez o que atingiu o Rio de Janeiro seja um aviso do que a natureza ainda poderá nos reservar em 2026, pois, afinal, ela já causa estragos e prejuízos e afeta a vida da população em várias regiões ao Sul do Brasil.
Existe, porém, outro vendaval que já sopra sobre o Brasil e atinge a todos. Ele atua de modo silencioso, embora seja percebido diariamente por milhões de brasileiros. Essa outra tempestade aparece no supermercado, na farmácia, no comércio e, principalmente, no orçamento das famílias.
O brasileiro não precisa acompanhar índices econômicos para perceber a inflação ou a perda do poder de compra da moeda.
O orçamento doméstico é o mais fiel dos indicadores econômicos.
Para o povo, existe uma pergunta simples: o dinheiro continua comprando aquilo que comprava antes? Essa talvez seja a medida mais concreta da economia. Especialistas podem discutir percentuais, revisar projeções e apresentar diferentes interpretações sobre os rumos do país. Essas análises são muito importantes. Mas, para a família que precisa pagar aluguel, comprar alimentos, adquirir medicamentos ou manter as contas em dia, a realidade aparece no fechamento do mês – se fechar, pois é enorme o número de famílias endividadas.
A inflação pode ser calculada em números, mas os seus efeitos são percebidos no bolso e nos carrinhos mais vazios. Produtos mais caros são substituídos por alternativas mais baratas, a carne é reduzida, a compra de roupa é adiada, a viagem é cancelada. A moeda continua com o mesmo nome, mas perdeu força. Nas compras parceladas, os juros custam mais do que parece. Desde a criação do Real, em 1994, a inflação acumulada reduziu significativamente o poder de compra da moeda brasileira. Esse processo aconteceu de forma gradual, quase imperceptível no dia a dia, mas com efeitos negativos evidentes, quando se olha para trás. A inflação mensal pode parecer pequena quando observada isoladamente, mas a soma contínua desses aumentos produz efeitos profundos ao longo do tempo. O acumulado chegou a 686,64% (G1, 13.4.2025). Em termos simples, para adquirir hoje as mesmas mercadorias que custavam R$ 100,00 em 1994, seria necessário gastar cerca de R$ 808,02 (CACB, 01.7.2025).
A perda do poder de compra é uma espécie de vento constante. Não provoca um estrondo imediato, mas desgasta aos poucos e, quando o orçamento das famílias começa a sentir essa pressão, já é tarde. O comércio também percebe o fenômeno, com movimento mais fraco. É verdade que o consumidor muda o seu comportamento e compara preços, comprando menos por impulso, enquanto os lojistas reduzem estoques e postergam investimentos. O varejo é um dos primeiros setores a sentir a mudança dos ventos econômicos. Quando o consumidor reduz suas compras, o efeito se espalha. Uma coisa puxa outra. A economia funciona como uma grande corrente, em que cada elo depende dos demais. As cadeias produtivas e de consumo se entrelaçam. A indústria produz menos, os fornecedores recebem menos pedidos, as transportadoras movimentam menos cargas e os serviços são afetados.
Como se os ventos internos não fossem suficientes, o mundo também atravessa um período de forte turbulência econômica. As grandes economias passaram a adotar medidas para proteger seus mercados, suas empresas e seus empregos. Estados Unidos, China e União Europeia utilizam tarifas, barreiras regulatórias, exigências sanitárias e políticas industriais como instrumentos de defesa de seus interesses econômicos.
E o Brasil? Também sente esses efeitos. O desafio está justamente em antecipar movimentos, fortalecer setores estratégicos e preparar-se para um cenário internacional cada vez mais competitivo. O comércio internacional nunca foi apenas uma relação de compra e venda, pois envolve relações complexas e de defesa do melhor para cada povo e o seu mercado. É um mundo de competição.
Quando um produto brasileiro enfrenta uma nova barreira no exterior, o problema não fica restrito ao exportador, já que o impacto percorre toda a cadeia produtiva. A vida de todos é afetada. Os trabalhadores não ficam imunes quando uma decisão tomada a milhares de quilômetros de distância atinge o campo brasileiro, a fábrica nacional e o bolso.
É assim que funciona a economia global: os ventos podem soprar de longe, mas os seus turbulentos efeitos chegam até as nossas casas. Tudo fica impactado e mais caro, financiamentos passam a pesar mais, investimentos são adiados, a inadimplência se eleva e o consumo perde força.
Ao mesmo tempo, o elevado endividamento público reduz a capacidade de investimento do Estado e aumenta a preocupação sobre o futuro da economia. Uma nação precisa produzir mais, investir mais, inovar mais e criar condições para que empresas tenham competitividade e trabalhadores tenham melhores oportunidades. O Brasil enfrenta, portanto, vários ventos contrários ao mesmo tempo: a perda do poder de compra da moeda, o endividamento das famílias, o custo elevado do crédito, as dificuldades estruturais da economia, a disputa comercial entre grandes potências e a necessidade de fortalecer a indústria e alavancar a produtividade.
Nenhum desses fatores, sozinho, explica todos os problemas. Mas juntos formam uma tempestade que merece atenção. E estamos no meio desse vendaval.
Do mesmo modo que a alta do custo de vida é mais compreendida pelo povo a partir do bolso e não dos índices e projeções, uma economia só mostra sua verdadeira força quando seus resultados chegam à vida das pessoas.
O vendaval que atingiu o Rio de Janeiro será lembrado pelas árvores caídas, pelos transtornos e pelo susto provocado nas ruas, mas a cidade logo retoma o seu funcionamento normal. Por outro lado, a tempestade econômica exige outro tipo de reconstrução, especialmente se enfrentarmos um período de desaceleração ou recessão. Recuperar o poder de compra das famílias, fortalecer a indústria, melhorar a produtividade e preparar o país para um ambiente internacional mais competitivo são desafios que não se resolvem em poucos dias.
Se o vento que atingiu o Rio de Janeiro pode ser interpretado como um alerta sobre os desafios climáticos que se aproximam, os indicadores econômicos parecem anunciar um cenário que merece atenção a partir de 2027. A natureza costuma enviar sinais antes das grandes tempestades. A economia também. O maior risco, diante de qualquer vendaval, é ignorar os primeiros sinais.
O VENDAVAL NAS RUAS E A TEMPESTADE NO BOLSO DO CONSUMIDOR

