Depois de alguns anos oficialmente aposentada do mercado amoroso, resolvi tomar uma decisão corajosa: voltar para a pista. Não por falta do que fazer, mas porque até os vasos de samambaia da varanda já estavam demonstrando mais vida afetiva do que eu.
A primeira providência foi criar um perfil em um aplicativo de relacionamentos. Confesso que levei a tarefa muito a sério. Nada de “aceito qualquer um”. Tenho critérios. Não muitos… só os suficientes para reduzir a população masculina disponível a algo próximo da lista de espécies ameaçadas de extinção.
Queria um homem acima de 1,75 m, negro, com idade equivalente à minha. Se sou exigente? Claro que sou. Depois de certa idade, a gente não procura emoção; procura paz. Emoção eu já tive suficiente pagando boleto e criando filho.
Vieram os primeiros contatos. Um parecia ter sido fotografado em 1998. Outro dizia ter 52 anos, mas as fotos denunciavam uma convivência íntima com Dom Pedro II. Um terceiro afirmava ser “atlético”, embora a única atividade física visível fosse levantar o garfo.
Quando eu já estava quase convencida de que morreria abraçada ao meu travesseiro ortopédico, apareceu ele.
Um metro e oitenta. Um pouquinho acima do peso — nada que comprometesse a estética de um bom abraço. Careca. Inteligente. Apaixonado por poesia. Gostava de música de qualidade. Conversava sobre política, economia, filosofia, cinema, literatura e até sobre o preço do tomate sem perder a elegância.
Gostava dos mesmos queijos que eu.
Preferia os mesmos vinhos.
Tinha as mesmas opiniões sobre quase tudo.
Era, basicamente, a minha versão masculina.
Pensei: “Meu Deus… será que finalmente inventaram um algoritmo que funciona?”
Marcamos um almoço.
Foi maravilhoso.
Conversamos durante horas. Não houve aquele silêncio constrangedor em que alguém pergunta se você prefere praia ou montanha só para preencher o vazio. Falamos de tudo. Rimos muito. Saí do restaurante convencida de que finalmente poderia mandar a solidão fazer intercâmbio em Marte.
Mas existe um pequeno detalhe sobre mim.
Sou jornalista.
E jornalista desconfiada não acredita nem na previsão do tempo olhando pela janela.
Era perfeito demais.
Quando cheguei em casa, meu instinto investigativo acordou como um cão farejador que acabou de sentir cheiro de osso enterrado.
Comecei discretamente.
Depois menos discretamente.
E, quando percebi, já estava fazendo uma verdadeira auditoria sentimental.
Como diz o velho ditado: quem procura…
…acha.
E eu achei.
Descobri que meu príncipe encantado era casado.
Não apenas casado.
Era um verdadeiro empreendedor do ramo matrimonial.
Tinha seis filhos.
Três do primeiro casamento.
Dois do segundo.
Um do casamento atual.
Isso sem contar as namoradas em sistema de rodízio.
Descobri também que ele mantinha várias parceiras simultaneamente. E tinha uma estratégia quase empresarial: quando percebia que um relacionamento estava estremecendo, já providenciava outro. Assim nunca corria o risco de chegar em casa e não encontrar uma mulher disposta a recebê-lo.
Era praticamente um plano de contingência afetiva.
Nesse momento compreendi que o problema não era eu ser exigente.
Era o mercado.
Sem qualquer cerimônia, apaguei meu perfil, bloqueei o número dele e encerrei a investigação com a mesma rapidez com que um delegado fecha um flagrante.
Algumas amigas disseram que fui radical.
Discordo.
Radical seria continuar.
Aprendi que, depois de certa idade, o amor pode até bater à porta, mas antes de abrir convém pedir CPF, certidão de casamento, antecedentes criminais e, se possível, uma declaração assinada pelas ex-esposas.
Porque paixão passa.
Dor de cabeça também.
Agora, ser promovida involuntariamente à categoria de “mulher de malandro” é um cargo para o qual nunca prestei concurso.
E, sinceramente?
Não tenho vocação para a função.
Voltei para a pista… e quase atropelei a mim mesma

