Há uma pergunta que atravessa os séculos e continua sem resposta definitiva: o que é preciso para ser feliz?
Desde a Grécia Antiga, o ser humano parece perseguir essa resposta como quem procura uma fonte escondida. Sócrates, Platão e Aristóteles dedicaram parte de suas reflexões à vida boa, à virtude, à consciência e à felicidade. Séculos depois, Sêneca, entre os estoicos, lembraria ao homem que grande parte de seu sofrimento nasce daquilo que já passou ou daquilo que ainda nem aconteceu.
O Ocidente bebeu — e continua bebendo — dessa fonte inesgotável de filosofia. A cada época, porém, o enigma da felicidade ganha novas roupagens. O que antes era chamado de sabedoria, virtude, serenidade ou domínio de si passou, especialmente a partir do nascimento das ciências humanas, a ser também investigado pelos instrumentos da psicologia.
O século das Luzes abriu espaço para uma nova maneira de compreender o ser humano. A razão, a ciência e, posteriormente, as ciências humanas começaram a dissecar aquilo que durante milênios havia sido objeto quase exclusivo da filosofia e da religião: a mente, as emoções, o comportamento, a consciência.
Com Carl Gustav Jung, a interioridade humana ganhou ainda mais profundidade. O homem deixou de ser compreendido apenas pelo que manifesta exteriormente e passou a ser convidado a olhar para sua própria sombra, seus conteúdos inconscientes, seus símbolos e seu processo de individuação. A psicologia moderna, por diferentes caminhos, acabou reencontrando uma antiga questão filosófica: como habitar a própria existência?
E chegamos ao século XXI.
Curiosamente, apesar de todo o conhecimento acumulado, das tecnologias, da velocidade da informação e das inúmeras ferramentas destinadas a facilitar a vida, parece que perdemos justamente a capacidade mais elementar: estar onde estamos.
Vivemos uma verdadeira epidemia do futuro.
A ansiedade nos coloca permanentemente diante de acontecimentos que ainda não chegaram. A mente cria cenários, antecipa tragédias, calcula possibilidades, ensaia conversas que talvez jamais aconteçam e sofre hoje por problemas que talvez nunca existam.
Mas existe também a epidemia do passado.
A depressão, em suas múltiplas dimensões e causas, pode aprisionar a pessoa em experiências dolorosas, perdas, culpas, fracassos e acontecimentos que já não podem ser modificados. O corpo está no presente, mas a alma permanece morando em algum lugar do passado.
E então surge a pergunta incômoda:
Por que será que o ser humano prefere as periferias da alma?
Por que é tão difícil permanecer no único território em que a vida realmente acontece?
O passado pode ser visitado, mas não pode ser habitado novamente. O futuro pode ser planejado, mas ainda não pode ser vivido. O presente, entretanto, é o único lugar onde podemos respirar, escolher, amar, modificar, aprender, perdoar e recomeçar.
No Oriente, essa percepção atravessou milênios. As tradições hindu, budista e taoista, cada uma a seu modo e dentro de suas próprias concepções, desenvolveram práticas de atenção, presença, contemplação e consciência que convidam o ser humano a abandonar a ilusão de que a vida está sempre em outro lugar.
Talvez seja justamente isso que tanto nos incomode: o presente não promete nada.
Ele simplesmente é.
Não oferece garantias sobre amanhã nem permite negociações com ontem. O aqui e agora nos coloca diante de nós mesmos, sem os adornos da fantasia e sem a possibilidade de reescrever aquilo que já aconteceu.
Talvez por isso o lugar mais vazio de tantas pessoas seja exatamente o presente.
Elas estão sempre chegando, mas nunca chegam.
Quando alcançam alguma coisa, imediatamente começam a desejar outra. Quando conquistam um objetivo, já estão preocupadas com o próximo. Quando estão diante de alguém que amam, o telefone rouba sua atenção. Quando finalmente têm silêncio, procuram algum ruído.
A vida acontece e nós, distraídos, fazemos planos para vivê-la depois.
É nesse ponto que as abordagens terapêuticas podem oferecer importantes caminhos. Na minha própria trajetória com a Programação Neurolinguística — PNL — encontrei ferramentas voltadas para a reeducação de padrões mentais, para a ressignificação de experiências e para a construção de novas possibilidades de percepção e comportamento.
Não se trata de apagar a história.
Trata-se de deixar de ser prisioneiro dela.
Reescrever a própria história não significa negar o que aconteceu, mas modificar a relação que estabelecemos com aquilo que aconteceu. O passado pode se transformar em professor sem continuar sendo carcereiro.
E o futuro pode ser uma direção sem se transformar em fonte permanente de ansiedade.
Existe uma diferença enorme entre ter metas e adiar a vida.
Precisamos de sonhos, projetos, planejamento e esperança. O problema começa quando colocamos nossa felicidade sempre alguns quilômetros à frente de nós mesmos.
“Quando eu tiver…”
“Quando eu conseguir…”
“Quando eu me aposentar…”
“Quando ganhar mais…”
“Quando aquela pessoa mudar…”
“Quando tudo estiver resolvido…”
E assim passamos a vida esperando a vida começar.
Mas basta observar a natureza.
Uma árvore não fica angustiada porque amanhã precisa produzir novas folhas. Um cão não passa o dia preocupado com o envelhecimento. Um gato não interrompe o prazer de uma janela ensolarada para fazer cálculos sobre o próximo mês.
A natureza parece conhecer aquilo que nós, seres humanos tão sofisticados, frequentemente esquecemos: a vida é uma sucessão de presentes.
Isso não significa viver de maneira irresponsável, sem planejamento ou compromisso. Estar no presente não é preguiça, desleixo ou ausência de ambição. Tampouco significa abandonar sonhos.
É justamente o contrário.
É fazer hoje aquilo que o hoje pede.
Se é para trabalhar, trabalhar.
Se é para descansar, descansar.
Se é para amar, amar.
Se é para pedir perdão, pedir.
Se é para estudar, estudar.
Se é para recomeçar, recomeçar.
Sem pretensões mirabolantes.
Sem expectativas que transformem o amanhã em um tirano.
Sem a negligência de quem utiliza o “viver o presente” como desculpa para não construir o futuro.
O equilíbrio está em compreender que planejar o amanhã é saudável; morar nele, não.
Recordar o ontem pode trazer sabedoria; morar nele pode transformar a memória em prisão.
O presente é o ponto de encontro entre aquilo que fomos e aquilo que ainda podemos ser.
Talvez a felicidade não esteja escondida em algum lugar extraordinário. Talvez ela esteja justamente na capacidade extraordinária de perceber o ordinário.
O café que esfriou enquanto pensamos em outras coisas.
O abraço que recebemos sem realmente sentir.
O sol entrando pela janela.
A conversa com um amigo.
O silêncio depois de uma longa jornada.
A mão de alguém que amamos.
A possibilidade de começar novamente.
A vida não acontece depois.
A vida acontece agora.
E talvez essa seja a grande lição que atravessou filósofos, sábios, psicólogos e terapeutas ao longo dos séculos: não precisamos abandonar o passado nem destruir o futuro. Precisamos apenas devolver a cada tempo o seu devido lugar.
O passado merece respeito.
O futuro merece planejamento.
Mas o presente merece ser vivido.
Porque, no fim das contas, o aqui e agora não é apenas um lugar no tempo. É o endereço da própria vida.
Aqui e Agora
Professora, historiadora, coach practitioner em PNL, neuropsicopedagoga
clínica e institucional, especialista em gestão pública.

