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A Gazeta do Amapá > Blog > Colunista > Marco Túlio > Defender a medicina é defender a sociedade
Marco Túlio

Defender a medicina é defender a sociedade

Marco Túlio
Ultima atualização: 29 de agosto de 2026 às 20:58
Por Marco Túlio 3 horas atrás
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Assumir a presidência da Associação Médica do Amapá (AMB-AP), ao lado dos colegas que integram nossa nova diretoria, representa mais do que ocupar uma função institucional. Significa assumir o compromisso de defender a boa medicina, valorizar o médico e, principalmente, contribuir para que a população tenha acesso a uma assistência segura e de qualidade.

A AMB-AP é federada da Associação Médica Brasileira (AMB) e integra uma estrutura nacional historicamente comprometida com a valorização da medicina e a qualidade da formação médica. Nossa atuação estará alinhada às grandes pautas defendidas nacionalmente pela AMB e pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). São instituições com atribuições distintas: a AMB atua na representação e defesa dos médicos e da medicina, enquanto o CFM, juntamente com os Conselhos Regionais, possui atribuições de normatização, fiscalização e disciplina ética do exercício profissional.

Entre as pautas que nos unem estão a qualidade da formação médica, o enfrentamento à abertura indiscriminada de escolas e vagas de Medicina sem estrutura adequada, critérios rigorosos para a revalidação de diplomas obtidos no exterior, o debate sobre um exame nacional de proficiência e a valorização do exercício profissional.

Sou médico radicado no Amapá desde 2009. Minha trajetória nos Conselhos de Medicina, inclusive representando nosso Estado em Brasília, e minha atuação em entidades médicas reforçaram uma convicção: não existe defesa do médico separada da defesa do paciente.

O Brasil precisa de médicos — mas de médicos bem formados

O Brasil viveu uma rápida expansão do número de escolas e vagas de Medicina. Aumentar a oferta de profissionais pode ser necessário, especialmente em regiões desassistidas, mas quantidade jamais poderá substituir qualidade.

Formar um médico exige muito mais do que abrir uma sala de aula. Uma escola médica necessita de hospitais e unidades de saúde para treinamento prático, estrutura acadêmica, professores qualificados, preceptores experientes e campos de estágio adequados.

Medicina se aprende nos livros, mas também à beira do leito, nos ambulatórios, nas enfermarias, nos centros cirúrgicos, nas emergências e, principalmente, no contato com pacientes e profissionais experientes.

Quando uma faculdade não oferece essas condições, todos perdem. Perde o estudante, que muitas vezes paga mensalidades elevadas e compromete o orçamento de sua família. Perde o jovem médico, que chegará ao mercado enfrentando as consequências de uma formação insuficiente. E perde, sobretudo, a população.

Defender critérios rigorosos para abertura e funcionamento das escolas médicas não significa criar reserva de mercado. Significa proteger estudantes e pacientes.Cursos com desempenho persistentemente insatisfatório precisam ser avaliados e fiscalizados, inclusive com restrição de novas vagas quando tecnicamente indicada, até que suas deficiências sejam corrigidas.

Revalidação e proficiência

O mesmo princípio deve orientar a revalidação dos diplomas médicos obtidos no exterior. O Brasil pode e deve receber profissionais qualificados, brasileiros ou estrangeiros, independentemente de onde tenham estudado. A questão não é o país onde ocorreu a formação, mas se o profissional possui os conhecimentos e competências necessários para exercer a Medicina com segurança.

A revalidação precisa, portanto, obedecer a critérios técnicos, transparentes, objetivos e rigorosos.

Também consideramos importante o debate sobre um exame nacional de proficiência médica. Nenhuma prova isoladamente corrige uma formação deficiente, mas uma avaliação nacional pode representar uma proteção adicional à sociedade e servir como indicador da qualidade das próprias instituições de ensino.

Se sucessivas turmas de uma faculdade apresentam desempenho muito abaixo do esperado, é legítimo perguntar: o problema está apenas no aluno ou também na escola que o formou?

E o Amapá?

As grandes discussões nacionais são fundamentais, mas uma Associação Médica estadual precisa olhar também para sua própria realidade. E no Amapá temos um desafio histórico: interiorizar a Medicina de maneira sustentável.

Precisamos de médicos em Macapá e Santana, mas também em Oiapoque, Laranjal do Jari, Calçoene, Ferreira Gomes e nos demais municípios.

Não basta dizer ao médico: “vá para o interior”. É preciso oferecer condições para que ele vá e, principalmente, permaneça.

Contratos temporários, vínculos frágeis, insegurança profissional e dificuldades estruturais não estimulam um médico a construir sua vida no interior. Por isso, uma das principais bandeiras da nova gestão da AMB-AP será a defesa de concursos públicos para médicos no Estado e nos municípios.

O concurso não resolve sozinho o problema, mas oferece estabilidade institucional e deve estar associado a remuneração compatível, estrutura de trabalho, disponibilidade de exames, medicamentos, equipamentos e condições adequadas para encaminhamento dos casos de maior complexidade.

Interiorizar não é simplesmente contratar. É fixar.

Precisamos substituir a política de preencher escalas por uma verdadeira política de fixação de médicos no interior. Isso exige participação das prefeituras, Governo do Estado, União, universidades, hospitais e entidades médicas. Cada ente precisa assumir suas responsabilidades para garantir assistência adequada à população.

A saúde é essencialmente multiprofissional. Enfermeiros, fisioterapeutas, farmacêuticos, psicólogos, nutricionistas e inúmeros outros profissionais são fundamentais para uma assistência moderna e de qualidade. Nesse conjunto, porém, o médico bem formado e integrado à comunidade exerce papel central na assistência, no diagnóstico, na definição de condutas e na coordenação do cuidado. Garantir a presença e a fixação de bons médicos nos municípios é, portanto, peça-chave para uma rede de saúde resolutiva e segura.

Uma Associação presente

É essa Associação Médica que pretendemos construir: aberta ao diálogo, mas sem receio de se posicionar.

Como federada da AMB, queremos trazer para o Amapá as grandes discussões nacionais da medicina e tambémlevar ao debate nacional as particularidades da nossa realidade amazônica.

Vamos dialogar com Governo do Estado, prefeituras, secretarias de Saúde, universidades, hospitais, Conselho Regional de Medicina, sindicatos e sociedades de especialidades.

Vamos defender formação médica de qualidade, critérios rigorosos para revalidação de diplomas, proficiência médica, melhores condições de trabalho, valorização profissional, concursos públicos e a interiorização da Medicina.

Não buscamos privilégios. Queremos que o estudante receba formação adequada; que o médico tenha condições dignas para trabalhar; que todo profissional demonstre qualificação para exercer a Medicina; e que o cidadão, esteja em Macapá ou no município mais distante do Amapá, possa confiar na assistência que recebe.

Todas essas bandeiras convergem para um mesmo objetivo:

Defender a boa Medicina é defender o médico.

Defender o médico é defender o paciente.

E defender o paciente é defender a sociedade.

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