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A Gazeta do Amapá > Blog > Amapá > Amapá na rota do ouro: avanço do garimpo ilegal ameaça a maior floresta preservada do Brasil
Amapá

Amapá na rota do ouro: avanço do garimpo ilegal ameaça a maior floresta preservada do Brasil

Redação
Ultima atualização: 11 de julho de 2026 às 08:24
Por Redação 4 horas atrás
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IBAMA
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O Amapá, celebrado em seu hino como um “solo fértil de imensos tesouros”, vive hoje um dos maiores desafios ambientais e de segurança pública de sua história recente. A riqueza mineral que por décadas representou esperança de desenvolvimento passou a atrair organizações criminosas e garimpeiros ilegais, transformando áreas de floresta intocada em novos alvos da corrida pelo ouro.

Nos últimos anos, o estado tornou-se destino de grupos expulsos de outras regiões da Amazônia, principalmente da Terra Indígena Yanomami, em Roraima, onde o governo federal intensificou as ações de combate ao garimpo ilegal. A migração dos criminosos coincide com o fortalecimento de facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), que ampliaram sua presença na Amazônia e passaram a enxergar o ouro como mais uma fonte de financiamento para suas atividades.

O resultado dessa combinação é um cenário cada vez mais preocupante: estradas clandestinas avançam sobre a floresta, rios são ameaçados pela contaminação, comunidades tradicionais vivem sob pressão e operações ambientais se tornam cada vez mais complexas.

Somente neste ano, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) realizou seis grandes operações de combate ao garimpo ilegal no Amapá. Duas delas ocorreram em maio, concentradas em áreas protegidas localizadas entre o estado e o norte do Pará, abrangendo o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque e o Vale do Jari.

As ações revelaram uma estrutura altamente organizada. Em uma das bases de apoio dos garimpeiros foram apreendidos 441 explosivos, utilizados para abrir frentes de mineração em áreas de difícil acesso.

Ao todo, 15 pessoas chegaram a ser detidas durante as operações. Entretanto, nenhuma permaneceu presa. A limitação logística das equipes, que dependem de aeronaves de pequeno porte para acessar regiões isoladas, impediu o transporte dos suspeitos até unidades policiais.

Apesar da dificuldade em efetuar prisões, o prejuízo causado às organizações criminosas foi significativo.

Durante a Operação Calha Norte, o Ibama destruiu sete escavadeiras hidráulicas, dois tratores, três quadriciclos, dezenas de motores utilizados na extração ilegal, além de diversos acampamentos clandestinos. Também foram inutilizados cerca de 3.300 litros de diesel que abasteceriam as atividades criminosas.

Na sequência, uma nova etapa da Operação Domo Amazônico intensificou a ofensiva contra os invasores instalados no Vale do Jari desde agosto de 2025. A fiscalização resultou na destruição de 31 acampamentos clandestinos, além da inutilização de 14.250 litros de diesel e outros 350 litros de gasolina utilizados para alimentar máquinas pesadas.

Segundo Felipe Finger, coordenador do Grupo Especializado de Fiscalização (GEF) do Ibama, as equipes identificaram mais de 300 quilômetros de ramais clandestinos construídos exclusivamente para transportar escavadeiras hidráulicas e equipamentos pesados até o interior das áreas protegidas.

As estradas ilegais atravessam um extenso mosaico ambiental que começa na Estação Ecológica do Jari e avança em direção ao norte, aproximando-se de terras indígenas e ampliando o risco de degradação ambiental.

O investimento necessário para abrir essas vias clandestinas evidencia a dimensão financeira da atividade criminosa.

De acordo com o Ibama, somente o elevado valor do ouro no mercado internacional explica a capacidade dos grupos de investir milhões de reais em maquinário, combustível, logística e infraestrutura para manter operações em regiões remotas da Amazônia.

As investigações ambientais apontam que o Amapá passou a integrar uma nova rota do garimpo ilegal após o endurecimento da fiscalização em outras áreas da Amazônia.

Primeiro, os garimpeiros foram retirados da Terra Indígena Yanomami, onde a devastação provocou uma grave crise humanitária, marcada pela contaminação dos rios por mercúrio, destruição da floresta e aumento da fome entre as comunidades indígenas.

Segundo dados divulgados pelo Greenpeace, as atividades ilegais na Terra Yanomami registraram redução superior a 95% em 2025.

Expulsos dali, muitos migraram para o território Sararé, em Mato Grosso. Com a intensificação das operações federais naquela região, parte desses grupos voltou a se deslocar, desta vez rumo ao Amapá.

Alguns avançaram ainda mais ao norte, alcançando o Parque Amazônico da Guiana Francesa, onde autoridades francesas também enfrentam crescente pressão do garimpo praticado por brasileiros.

Outro fator decisivo para essa nova corrida pelo minério é a valorização recorde do ouro no mercado internacional.

Nos últimos dois anos, o metal praticamente dobrou de preço, tornando ainda mais lucrativa a exploração ilegal.

O aumento da rentabilidade fortaleceu organizações criminosas que passaram a financiar operações cada vez maiores, utilizando máquinas pesadas, aeronaves, pistas clandestinas e sofisticadas redes de logística.

Segundo investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, parte expressiva do ouro retirado ilegalmente da Amazônia abastece tanto o mercado brasileiro quanto compradores internacionais na Europa, Ásia e Estados Unidos.

Para enfrentar esse comércio clandestino, Brasil e França firmaram, em 2025, um acordo de cooperação voltado ao combate ao garimpo ilegal na fronteira com a Guiana Francesa.

A iniciativa integra o programa Ouro Alvo, da Polícia Federal, que utiliza análises físico-químicas capazes de identificar a origem geológica do minério — uma espécie de “DNA do ouro” — permitindo rastrear sua procedência e combater a lavagem do produto extraído ilegalmente.

O avanço do garimpo ilegal ocorre justamente no estado considerado um dos maiores patrimônios ambientais do planeta.

Sem ligação rodoviária direta com o restante do país, o Amapá preserva cerca de 73% de seu território sob alguma categoria de proteção ambiental, o maior percentual entre todos os estados brasileiros.

São 21 unidades de conservação, além de extensas terras indígenas e territórios quilombolas que formam um dos mais importantes corredores de biodiversidade da Amazônia.

Essa condição, que por décadas funcionou como barreira natural contra o desmatamento, hoje representa também um enorme desafio para os órgãos de fiscalização, obrigados a atuar em regiões isoladas, de difícil acesso e cada vez mais cobiçadas pelo crime organizado.

Enquanto o garimpo clandestino avança sobre áreas protegidas, a mineração industrial busca reconstruir sua presença no estado.

Em Pedra Branca do Amapari, a cerca de 189 quilômetros de Macapá, a empresa Amapá Minerals retomou as atividades em uma área anteriormente explorada pela antiga Tucano Gold, cujas operações permaneceram paralisadas durante aproximadamente quatro anos.

A retomada ocorre sob expectativa de geração de empregos e movimentação da economia regional, mas também reacende o debate sobre o equilíbrio entre desenvolvimento econômico, preservação ambiental e proteção das populações indígenas e ribeirinhas que vivem na região.

No Amapá, onde riqueza mineral e floresta convivem lado a lado, esse equilíbrio será determinante para definir se o ouro continuará representando prosperidade ou se permanecerá alimentando um ciclo de degradação ambiental, violência e expansão do crime organizado.

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Redação 11 de julho de 2026 11 de julho de 2026
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