A chegada da Páscoa, tradicionalmente celebrada com mesas fartas e troca de ovos de chocolate, traz consigo um desafio invisível para milhões de pessoas: a gestão da saúde emocional diante da comida. O que para muitos é um período de confraternização, para outros funciona como um gatilho para episódios de compulsão alimentar e perda de controle.
O fenômeno acende um alerta entre especialistas, já que os transtornos alimentares estão entre as condições de saúde mental que mais crescem globalmente, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
De acordo com a psicóloga Andrea Beltran, o simbolismo da data pode amplificar feridas emocionais pré-existentes. A comida, nesses casos, deixa de ser nutrição para se tornar um mecanismo de enfrentamento para dores internas, frustrações e vazios que o indivíduo não consegue nomear.
Entenda
- Fome emocional: a compulsão na Páscoa raramente é sobre fome física; o excesso de doce costuma ser uma tentativa de silenciar sentimentos como solidão e estresse.
- Ciclo de culpa: o consumo desenfreado gera ansiedade e autocrítica, o que, por sua vez, realimenta o desejo de buscar conforto imediato no açúcar.
- Raízes psíquicas: na visão da psicologia junguiana, a relação com o alimento revela aspectos profundos do inconsciente e conflitos não elaborados.
- Riscos à saúde: além do prejuízo emocional, o comportamento desregulado aumenta o risco de doenças metabólicas e obesidade, conforme alerta a OPAS.
O chocolate como “anestésico” emocional
Para quem possui uma relação fragilizada com a comida, o apelo comercial e social da Páscoa é uma armadilha. Andrea Beltran explica que o chocolate e os encontros sociais podem atuar como amplificadores.
“Para muitas pessoas, esse período não representa apenas prazer, mas também ansiedade e perda de controle”, afirma.
Baseada nos conceitos de Carl Jung, a psicóloga ressalta que a compulsão funciona como um sinal da vida psíquica. Quando o ato de comer deixa de ser uma escolha consciente, ele passa a ser uma tentativa simbólica de preencher uma falta que não é do corpo.
“Por trás da compulsão podem existir sentimentos não reconhecidos, carência afetiva e até a dificuldade de entrar em contato com aquilo que realmente falta”, diz a especialista.
O perigo do “conforto imediato”
Dados publicados no Journal of Eating Disorders corroboram essa visão, associando a compulsão à dificuldade de regulação emocional. O sintoma aparece como uma saída para suportar emoções difíceis. No entanto, esse alívio é passageiro e perigoso.
A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) reforça que o ciclo de desregulação alimentar agrava quadros de depressão e compromete a saúde metabólica, criando um círculo vicioso difícil de romper sem auxílio profissional.
Ressignificando a celebração
A solução, segundo a especialista ouvida, passa pelo autoconhecimento e pela psicoterapia. O processo terapêutico permite que o paciente diferencie a fome física da emocional e compreenda sua história de vida e seus gatilhos.
Para Beltran, a Páscoa pode ser uma oportunidade de transformação se vivida com mais consciência e menos cobrança. “Talvez seja um momento de escuta interna. Quando a pessoa entende que a compulsão não define quem ela é, mas sinaliza algo que precisa ser cuidado, abre-se a possibilidade de viver o período com mais equilíbrio”, conclui a psicóloga.
Fonte: Metrópoles

