O pensamento revolucionário da esquerda política tem sustentado, em cada geração, que estamos numa hora final, num ponto de ruptura, no instante em que a história finalmente será decidida. Trata-se de uma contrafação do tipo já abordado por Eric Voegelin nas chamadas “religiões seculares”.
A crença de que vivemos no limiar de uma transformação definitiva, numa hora urgente, no “momento decisivo”, é originalmente cristã. Essas religiões políticas são apenas falsificações desse desfecho. E ele não é utópico nem distópico, mas cristópico.
Depois de falharem enormemente, os marxistas reformularam essa ideia para um novo contexto, com novos inimigos e novas urgências. Eles precisam de um enredo e de um clímax para mobilizar e convocar todos para uma história maior.
Foi assim com os bolcheviques, com a New Left americana e continua sendo com os webcomunistas atuais. Todos anunciaram um cenário distópico de escravidão capitalista iminente e se colocaram como protagonistas das soluções redentoras de sua época.
Os socialistas franceses do século XIX falavam do colapso iminente da ordem vigente. A Primeira e a Segunda Internacional denunciavam uma crise estrutural sem precedentes. Os bolcheviques pregavam o limiar de uma virada mundial. Movimentos marxistas na Ásia e no Ocidente herdaram essa mesma sensação de urgência histórica.
Depois da queda da URSS, esse impulso continuou em novos formatos, com outras estéticas, mas com o mesmo núcleo: a percepção de que estamos à beira de um desfecho civilizacional.
O problema é que, quando esse tipo de pensamento anuncia o nosso tempo como definitivo, como o capítulo final da narrativa humana, ele passa a justificar quaisquer meios para “redimir” a história. A urgência redefine limites. A exceção se normaliza. O presente se transforma em um campo onde tudo pode ser sacrificado em nome de um futuro considerado inevitável.
Foi isso que ocorreu em diversas experiências revolucionárias, com milhares de vítimas inocentes. Ao proclamarem o “fim da história”, exigiu-se a eliminação daqueles que se opunham ao suposto fluxo infalível do materialismo histórico. Esses revolucionários se imaginam como protagonistas do “último ato” e desejam ocupar o centro desse desfecho final.
Mas, em suas experiências históricas, esses intérpretes do tempo falharam profundamente. E, depois de tantas tragédias provocadas por eles mesmos, ainda pedem uma nova oportunidade para um novo experimento.
Será que vamos dar mais essa chance a eles? É você quem vai responder a isso.

