Os pedidos de Recuperação Judicial (RJs) das empresas cresceram fortemente nos últimos anos no Brasil.
Em 2024, o aumento ficou próximo de 60% em relação a 2023, dependendo da base utilizada. Entre pequenas e médias empresas, alguns setores registraram alta superior a 80%.
Os segmentos mais atingidos foram:
Varejo
Construção civil
Agronegócio
Transportes
Indústria
Serviços
O dado mais preocupante é que o avanço das RJs aconteceu mesmo com desemprego em queda e atividade econômica relativamente aquecida.
Isso revela um paradoxo brasileiro: empresas continuam funcionando, vendendo e faturando, mas sem fluxo de caixa suficiente para suportar o custo financeiro da operação.
Muitas não quebram por falta de clientes. Quebram por causa de:
Juros altos
Endividamento bancário
Margens comprimidas
Carga tributária complexa
Aumento do custo operacional
Capital de giro caro
Queda do consumo real
Dependência excessiva de crédito
A recuperação judicial virou uma espécie de “UTI financeira” corporativa. Algumas empresas conseguem reorganizar dívidas e sobreviver. Outras apenas prolongam uma falência inevitável.
O problema deixou de atingir apenas empresas mal administradas. Hoje, até operações saudáveis podem entrar em colapso quando o ambiente econômico inteiro se torna hostil.
O Brasil criou uma economia onde muitas empresas trabalham para pagar juros antes mesmo de gerar lucro.
Por um outro lado, a população brasileira está endividada e, em muitos casos, sem conseguir pagar suas contas. Cerca de 80 milhões de CPFs foram negativados, segundo dados recentes da Serasa/SPC.
O trabalho no Brasil deixou de significar estabilidade. Muitos brasileiros não conseguiriam sustentar as despesas básicas por mais de um ou dois meses sem renda.
Criamos uma economia onde milhões trabalham constantemente, mas vivem em modo de sobrevivência. O salário entra já comprometido. O crédito virou extensão da renda. O cartão de crédito virou anestesia social.
Existe uma combinação explosiva:
Inflação acumulada corroendo o poder de compra
Juros muito altos
Crédito fácil e caro
Salários que crescem menos que o custo de vida
Cultura de consumo financiado
Informalidade e insegurança econômica
Famílias sem educação financeira
Aumento do custo fixo básico: moradia, alimentação, saúde e transporte
O sujeito trabalha o mês inteiro, mas o dinheiro já pertence ao banco antes mesmo de cair na conta.
Aprendemos a antecipar consumo sem antecipar riqueza.
Shopping cheio
Restaurante lotado
iPhone parcelado
Viagens financiadas
Mas, na prática, temos uma população exausta sustentando um padrão de vida apoiado em dívida rotativa.
O Brasil acabou produzindo um hamster financeiro nacional: milhões correndo sem parar apenas para continuar no mesmo lugar.

