Paul Kingsnorth, escritor britânico, ex-ambientalista e convertido ao cristianismo ortodoxo, sugere que a inteligência artificial pode preparar o caminho para aquilo que a tradição cristã chama de Anticristo. Ele não afirma que a IA seja o Anticristo, mas que ela pode criar as condições culturais, espirituais e políticas para sua ascensão.
Para ele, a tecnologia tende a substituir Deus. Kingsnorth argumenta que a civilização moderna não abandonou a religião. Ela apenas trocou seu objeto de adoração. Em vez de buscar a salvação em Deus, passou a buscá-la na ciência, na técnica e na inteligência artificial. Nesse sentido, a IA passa a ocupar um lugar quase messiânico.
Muitas empresas de IA afirmam que ela poderá resolver os maiores problemas da humanidade: doenças, pobreza, guerras, ignorância, envelhecimento e até mesmo a morte. Essa narrativa se aproxima de uma expectativa religiosa: a esperança de uma salvação produzida pelo próprio homem.
Apocalipse 13 descreve um sistema capaz de exercer influência sobre “todos, pequenos e grandes, ricos e pobres”. Kingsnorth observa que, pela primeira vez na história, tecnologias digitais podem integrar identificação digital, vigilância em massa, reconhecimento facial, moeda digital, perfis comportamentais e uma IA capaz de monitorar bilhões de pessoas simultaneamente. A infraestrutura técnica para um controle global é hoje muito mais plausível do que em qualquer outro período histórico. Existe um potencial de controle sem precedentes.
A IA pode gerar textos, imagens, vídeos e vozes praticamente indistinguíveis da realidade. E, se ninguém consegue distinguir a verdade da mentira, quem passará a definir a realidade? Kingsnorth teme que tecnologias capazes de produzir ilusões em escala ampliem enormemente o problema da “fabricação” da verdade.
Alguns líderes da indústria tecnológica falam em inteligência artificial geral (AGI) ou superinteligência como algo que superará a capacidade humana em praticamente todos os campos. Trata-se da criação de uma inteligência “quase divina”. Hoje, milhões de pessoas já consultam sistemas de inteligência artificial para tomar decisões. Imagine se elas passarem a acreditar que a IA possui as melhores respostas para decidir o que é verdade, o que é moral, em quem votar, como educar os filhos e como viver.
A contribuição mais provocativa de Kingsnorth é uma pergunta:
O que acontece quando uma civilização começa a confiar em uma inteligência criada por ela mais do que na sabedoria de Deus?
Essa questão dialoga com a Torre de Babel, a idolatria do bezerro de ouro e a tentativa humana de alcançar autonomia absoluta. A Bíblia nos convida a discernir onde colocamos nossa confiança e a não substituir Deus por qualquer obra das nossas próprias mãos.
No fim, o cristão não é chamado a depender de uma inteligência artificial, mas da direção do Espírito Santo.
“Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus.” (Romanos 8:14)

