Na política, a vitória raramente pertence ao mais ruidoso. Ela costuma favorecer quem compreende melhor o tabuleiro e evita oferecer ao adversário as peças necessárias para construir sua narrativa. As recentes controvérsias envolvendo declarações de integrantes da família Bolsonaro sobre medidas adotadas pelos Estados Unidos contra o Brasil revelam exatamente esse problema. Ao longo dos últimos anos, os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro transformaram-se em protagonistas centrais da comunicação do campo conservador, mas também em fontes recorrentes de crises que frequentemente deslocam o debate dos temas substantivos para controvérsias criadas por suas próprias declarações. O episódio envolvendo ameaças tarifárias norte-americanas e a classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas expôs mais uma vez aquilo que diversos analistas identificam como uma deficiência estratégica: a incapacidade de avaliar previamente os efeitos políticos de determinadas narrativas. O cientista político brasileiro Bolívar Lamounier já observou em diversas ocasiões que movimentos políticos sustentados pela emoção permanente tendem a cometer erros de cálculo. Da mesma forma, o historiador e cientista político Francis Fukuyama advertiu que lideranças excessivamente mobilizadas pela lógica da confrontação acabam perdendo capacidade de formular estratégias de longo prazo.
O problema não reside apenas no conteúdo das declarações, mas na oscilação discursiva que frequentemente as acompanha. Quando uma liderança ou seus porta-vozes assumem inicialmente determinada posição e, diante da repercussão negativa, recuam ou alteram a versão apresentada, abrem espaço para questionamentos sobre coerência e credibilidade. O jornalista Merval Pereira já destacou inúmeras vezes que a consistência narrativa constitui um dos ativos mais valiosos da política contemporânea. Em tempos de redes sociais, a velocidade da comunicação potencializa tanto os acertos quanto os erros. O cientista político Carlos Melo costuma afirmar que uma campanha eficiente depende da capacidade de controlar a agenda pública. Quando o próprio grupo político produz sucessivas controvérsias internas, perde-se o controle da narrativa e transfere-se ao adversário a oportunidade de explorar os desgastes. A política moderna não premia apenas quem fala mais alto, mas quem consegue manter uma linha estratégica estável ao longo do tempo.
Nesse contexto, o presidente Lula demonstra habilidade em explorar os espaços deixados pelos erros adversários. A experiência acumulada em décadas de disputas eleitorais permite ao líder petista converter crises em oportunidades narrativas. Não se trata necessariamente de superioridade ideológica, mas de eficiência política. O sociólogo francês Pierre Bourdieu ensinava que a política é também uma disputa pela definição legítima dos acontecimentos. Quando adversários oferecem fatos politicamente exploráveis, criam condições para que o oponente atribua significado favorável a esses episódios. O jornalista Kennedy Alencar frequentemente observa que Lula possui notável capacidade de transformar ataques em combustível político. Ao permitir que temas relacionados à soberania nacional ocupem o centro do debate, setores do bolsonarismo acabam fornecendo ao presidente uma pauta historicamente favorável à esquerda brasileira, especialmente junto aos segmentos mais nacionalistas do eleitorado.
A história política está repleta de exemplos em que a derrota não foi causada pela força do adversário, mas pelos equívocos de quem pretendia derrotá-lo. O cientista político Giovanni Sartori advertia que a eficácia política depende da combinação entre convicção e racionalidade estratégica. Quando o ressentimento ou a hostilidade ao adversário passam a orientar decisões centrais, a estratégia cede lugar ao impulso. É justamente essa impressão que diversos observadores identificam em parte do bolsonarismo contemporâneo. O objetivo de derrotar Lula parece, em determinados momentos, ser substituído pelo desejo de confrontá-lo a qualquer custo, ainda que isso fortaleça sua posição perante a opinião pública. Em política, poucas armadilhas são tão perigosas quanto permitir que a aversão ao adversário se torne mais importante do que a construção de um caminho consistente para vencê-lo. E, quando isso acontece, o maior beneficiário costuma ser exatamente aquele que se pretendia enfraquecer.

