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A Gazeta do Amapá > Blog > Colunista > Vicente Cruz > Quando o preconceito tenta se disfarçar de estatística
Vicente Cruz

Quando o preconceito tenta se disfarçar de estatística

Vicente Cruz
Ultima atualização: 11 de julho de 2026 às 19:18
Por Vicente Cruz 6 horas atrás
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A afirmação de que mulheres “votam estatisticamente mal”, atribuída ao comentarista Paulo Figueiredo durante debate sobre os desdobramentos da crise envolvendo Michelle Bolsonaro e o Partido Liberal, não representa apenas uma opinião polêmica. Ela traduz uma visão de mundo que, embora incompatível com os valores democráticos contemporâneos, continua encontrando abrigo em determinados ambientes políticos marcados pelo conservadorismo de costumes e pela resistência ao protagonismo feminino. O episódio ganhou contornos ainda mais simbólicos porque surgiu justamente no momento em que Michelle Bolsonaro consolidava sua posição como a principal liderança feminina da direita brasileira e reivindicava reconhecimento político compatível com sua condição de presidente do PL Mulher e figura eleitoral de grande densidade popular. O desconforto provocado por sua postura evidencia uma dificuldade histórica de certos setores em aceitar mulheres não como apoiadoras, cabos eleitorais ou personagens decorativas, mas como protagonistas efetivas dos processos decisórios.
O problema torna-se ainda mais grave quando preconceitos ideológicos procuram vestir-se com as roupas da ciência. Nenhuma pesquisa séria da ciência política sustenta a tese de que mulheres possuam menor capacidade de julgamento eleitoral do que homens. Estudos clássicos sobre comportamento político desenvolvidos por cientistas políticos como Pippa Norris e Ronald Inglehart identificam diferenças de prioridades e preferências entre grupos sociais, mas jamais estabeleceram qualquer hierarquia de racionalidade democrática entre homens e mulheres. Da mesma forma, não existe evidência empírica capaz de sustentar a ideia de que mulheres casadas votam, por definição, segundo a orientação dos maridos. O que a literatura especializada demonstra é exatamente o contrário: a crescente autonomia política feminina acompanha a ampliação da escolaridade, da inserção profissional e do acesso à informação. Transformar convicções ideológicas em supostas verdades estatísticas constitui expediente recorrente de discursos preconceituosos que buscam legitimidade na aparência da objetividade científica.
A tentativa de reduzir a participação política feminina a uma posição subalterna confronta décadas de reflexão intelectual e de conquistas democráticas. A filósofa Simone de Beauvoir demonstrou que a condição feminina foi historicamente construída a partir da negação do protagonismo da mulher na vida pública. Já Hannah Arendt ensinou que a política nasce precisamente da pluralidade e da convivência entre diferentes visões de mundo. Mais recentemente, pensadoras como Nancy Fraser enfatizaram que a exclusão simbólica produz desigualdades tão profundas quanto as econômicas. No Brasil, trajetórias como as de Benedita da Silva, Marina Silva, Simone Tebet e da própria Michelle Bolsonaro demonstram que liderança política não possui sexo, mas legitimidade, preparo e capacidade de mobilização social.
O episódio revela, em última análise, uma disputa muito maior do que as divergências internas de um partido político. O que está em jogo é a própria compreensão sobre quem possui o direito de ocupar os espaços de poder na democracia brasileira do século XXI. Discursos que classificam mulheres como eleitoras inferiores ou agentes de instabilidade partidária apenas reproduzem a velha lógica patriarcal que durante séculos afastou metade da população das grandes decisões nacionais. Como advertia Rosa Luxemburgo, a liberdade perde sentido quando não alcança todos indistintamente. Democracias maduras não perguntam se mulheres votam melhor ou pior que homens, nem aceitam que protagonismo político seja privilégio de um gênero. A pergunta relevante é outra: estamos preparados para conviver com mulheres exercendo plenamente o poder ou ainda insistiremos em transformar preconceitos antigos em estatísticas imaginárias para justificar privilégios históricos? É uma boa hora para refletir.

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