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A Gazeta do Amapá > Blog > Colunista > Yuri Alesi > MÃES SOLOS – O DESAFIO QUE O BRASIL AINDA INSISTE EM NÃO ENXERGAR
Yuri Alesi

MÃES SOLOS – O DESAFIO QUE O BRASIL AINDA INSISTE EM NÃO ENXERGAR

Yuri Alesi
Ultima atualização: 14 de junho de 2026 às 15:33
Por Yuri Alesi 2 meses atrás
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Advogado Sênior, do Escritório de Advocacia Alesi, Guerreiro & Teles, especialista em Direito Tributário e Administração Publica. Ex-Assessor Especial da Procuradoria Geral da Assembleia Legislativa do Estado do Amapá, Ex-Vereador de Oiapoque-AP.
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Recentemente vivi uma das experiências mais transformadoras da minha vida, que foi o nascimento do meu primeiro filho, José. A chegada de uma criança muda tudo. Muda a rotina, muda as prioridades, muda a forma como enxergamos o mundo. Pela primeira vez, tive a oportunidade de acompanhar de perto as consultas médicas, os exames, as preocupações do pré-natal, a ansiedade dos últimos dias da gestação, a expectativa do parto e os desafios dos primeiros meses de vida.
Mesmo contando com acompanhamento médico na rede particular, mesmo tendo acesso a exames sem filas, mesmo possuindo uma estrutura familiar presente e disposta a ajudar em cada etapa, posso afirmar sem exagero que foi difícil. Muito difícil.
As noites mal dormidas, as preocupações constantes, o medo de que algo desse errado, as mudanças físicas e emocionais enfrentadas pela mãe, as adaptações financeiras e a responsabilidade permanente sobre uma vida indefesa, são desafios que só compreendemos plenamente quando os vivemos.
Foi justamente a partir dessa experiência que passei a refletir sobre uma realidade muito mais dura, a de como é a vida das milhares de mulheres que enfrentam essa jornada completamente sozinhas? Como é a vida das mães solos do Brasil? Mais especificamente, como é a vida das mães solo do Amapá?
Os números ajudam a compreender a dimensão do problema. Dados do Censo Demográfico de 2022 mostram que mais de 10 milhões de domicílios brasileiros são compostos por mulheres responsáveis pelo lar, sem cônjuge e com filhos. Em âmbito nacional, quase um terço dos lares chefiados por mulheres está nessa condição. O mais impressionante é que o Amapá aparece entre os estados com os maiores índices do país, figurando ao lado de Sergipe e do Distrito Federal entre as unidades da federação com maior proporção de mulheres criando filhos sem a presença de um companheiro.
Esses números não representam apenas estatísticas, eles representam histórias. Representam mulheres que acordam antes do amanhecer para preparar o café, organizar a casa, levar os filhos para a escola, trabalhar durante todo o dia, retornar para casa, cozinhar, lavar roupas, ajudar nas tarefas escolares, cuidar da saúde das crianças e ainda encontrar forças para continuar no dia seguinte.
Enquanto muitos enxergam apenas números, eu vejo rostos. Vejo a jovem de 16 anos que engravidou sem planejamento e foi abandonada pelo namorado quando anunciou a gravidez. Vejo a mulher que sofreu violência doméstica e precisou escolher entre permanecer em um relacionamento abusivo ou criar seus filhos sozinha.
Ainda, vejo a mãe que recebe uma pensão insuficiente — quando recebe — e precisa multiplicar cada real para garantir comida na mesa. Sem falar, de todas aquelas que perdem oportunidades profissionais porque não tem com quem deixar seus filhos. Mulheres que precisam escolher entre faltar ao trabalho para levar a criança ao médico ou correr o risco de perder o emprego.
Percebi que a jornada das mães solo começa muito antes do nascimento da criança, ela começa ainda durante a gestação. Enquanto algumas gestantes realizam seus exames em clínicas particulares, milhares de mulheres dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde. Muitas enfrentam dificuldades para marcar consultas, realizam longos deslocamentos para conseguir atendimento especializado e aguardam meses por exames que deveriam ser feitos com rapidez.
A ansiedade que já é natural em qualquer gravidez torna-se ainda maior quando existe a incerteza sobre quando será a próxima consulta ou se o exame solicitado pelo médico será realizado a tempo, se será possível realizar a ultrassonografia para saber se está tudo bem como o bebê.
Chega então o momento do parto.
Para muitas mulheres, a maternidade deveria ser um espaço de acolhimento, mas, infelizmente, nem sempre é assim. Em diversas regiões do país, especialmente na Amazônia, ainda encontramos estruturas precárias, superlotação, falta de profissionais e ambientes que estão longe da dignidade que uma mulher merece em um dos momentos mais importantes de sua vida.
Imagine uma mulher chegando para dar à luz sem a presença do pai da criança, sem a sua mãe, irmã, amiga, ou alguém que possa lhe dar suporte, pelo menos para dizer que tudo ficará bem. A solidão, nesse momento, é uma dor que não aparece nos prontuários médicos, algo que não pode ser medida por exames e nem constará em nenhum registro para aferição, mas que deixa marcas profundas.
Depois do nascimento, os desafios apenas aumentam. A romantização da maternidade costuma esconder uma realidade exaustiva. As redes sociais mostram fotos bonitas, sorrisos, todos os momentos felizes, mas raramente mostram a mulher chorando de cansaço às três da manhã. Raramente mostram a mãe que está há dias sem dormir adequadamente. Também não mostram o desespero de quem percebe que o dinheiro acabou antes do final do mês.
A primeira infância é uma fase particularmente cruel para as mães solo de baixa renda. A ausência de creches suficientes continua sendo um dos maiores obstáculos à emancipação econômica dessas mulheres. Milhares delas desejam trabalhar, querem empreender, estudar, desejam profundamente construir uma carreira, porém sem creche, não conseguem trabalhar, sem trabalho, dependem de programas assistenciais, dependendo desses programas, permanecem em situação de vulnerabilidade. Eis então, um ciclo perverso de pobreza.
Num mundo ideal, a mulher, chefe de família, deveria ter pleno acesso a educação, a qualificação profissional, ao emprego, a uma creche de qualidade e a oportunidades reais de crescimento.
Há outro ponto relevante, e sempre converso com minha esposa sobre isso, que é o desafio pouco debatido, porém muito importe, a saúde mental. Pois quem cuida da saúde emocional das mães solo? Quem pergunta se elas estão bem? Quem percebe quando a exaustão se transforma em depressão? Quem identifica quando a ansiedade se transforma em sofrimento crônico?
A maternidade solitária frequentemente produz um sentimento permanente de sobrecarga. Não existe revezamento, sem folga, escala 24×24, sete dias por semana. Não existe descanso. E a consequência aparece em forma de esgotamento físico e emocional. Sem falar do preconceito social. Apesar dos avanços da sociedade, muitas mães solos continuam sendo julgadas. Algumas são acusadas de terem escolhido errado, outras são responsabilizadas pelo abandono que sofreram. Poucas delas recebem a compreensão que merecem.
A verdade é que a maternidade solo não é uma escolha para grande parte dessas mulheres. É uma circunstância imposta pela ausência paterna, pela violência, pela separação, pela viuvez ou pela simples irresponsabilidade de quem deveria compartilhar os deveres da criação.
Diante dessa realidade, precisamos abandonar discursos vazios e começar a discutir soluções concretas. A primeira delas é ampliar significativamente a oferta de creches públicas, pois não se trata apenas de uma política educacional, trata-se, sobretudo, de uma política de combate à pobreza. Cada vaga em creche representa uma mãe com mais chances de ingressar ou permanecer no mercado de trabalho.
A segunda medida é fortalecer os programas de acompanhamento psicológico voltados às gestantes e mães em situação de vulnerabilidade. Saúde mental também é política pública, saúde mental também salva vidas.
Uma terceira proposta seria a criação de uma grande Rede Solidária da Primeira Infância, envolvendo governo, igrejas, empresas, universidades, entidades filantrópicas e sociedade civil. Essa rede poderia organizar bancos permanentes de doação de roupas infantis, fraldas, leite, medicamentos, carrinhos, berços, materiais escolares e produtos de higiene. Aquilo que para uma família representa um item sem utilização pode significar dignidade para outra.
Também defendo a criação de programas de visita domiciliar para mulheres submetidas a cesarianas ou partos de maior complexidade. Muitas retornam para casa sem qualquer suporte. Precisam cozinhar, limpar, cuidar dos filhos e realizar esforços físicos justamente no período em que deveriam estar em recuperação.
Equipes multidisciplinares compostas por enfermeiros, assistentes sociais e psicólogos poderiam realizar acompanhamentos temporários, reduzindo riscos e promovendo maior segurança para mãe e bebê.
Da mesma forma, programas de capacitação profissional voltados exclusivamente para mães solo poderiam oferecer cursos flexíveis, bolsas de estudo e incentivos para inserção no mercado de trabalho. Nenhuma mulher deveria ser condenada à dependência permanente por falta de oportunidade.
Ao olhar para meu filho José, penso frequentemente sobre privilégios que muitas vezes passam despercebidos. Penso no privilégio de ter acompanhamento médico adequado, no de poder contar com uma rede familiar presente, em ter apoio emocional, em poder dividir responsabilidades. E justamente por reconhecer esses privilégios, sinto a obrigação de olhar para aquelas que não tiveram a mesma sorte.
As mães solos não precisam de pena, mas sim de respeito, de políticas públicas eficazes, que as oportunizem, que aliviem sua carga, que ajude seus senhos a permanecerem vivos.
O Brasil e o Amapá possuem milhões de mulheres sustentando sozinhas famílias inteiras. Mulheres que carregam nos braços seus filhos e, ao mesmo tempo, carregam nas costas o peso de responsabilidades que deveriam ser compartilhadas. Quando uma mãe solo vence, não é apenas ela que avança, avança uma família, avança uma comunidade inteira.
Talvez esteja na hora de enxergarmos essas mulheres não como estatísticas perdidas em relatórios do IBGE, mas como aquilo que verdadeiramente são, heroínas anônimas que sustentam silenciosamente uma parte significativa do futuro do nosso país.

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Yuri Alesi 14 de junho de 2026 14 de junho de 2026
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