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A Gazeta do Amapá > Blog > Colunista > Yuri Alesi > O QUE O OIAPOQUE TEM A VER COM O ACORDO UNIÃO EUROPÉIA E MERCOSUL?
Yuri Alesi

O QUE O OIAPOQUE TEM A VER COM O ACORDO UNIÃO EUROPÉIA E MERCOSUL?

Yuri Alesi
Ultima atualização: 7 de junho de 2026 às 09:03
Por Yuri Alesi 4 horas atrás
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Advogado Sênior, do Escritório de Advocacia Alesi, Guerreiro & Teles, especialista em Direito Tributário e Administração Publica. Ex-Assessor Especial da Procuradoria Geral da Assembleia Legislativa do Estado do Amapá, Ex-Vereador de Oiapoque-AP.
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Durante todos os anos que me entendo por gente, ouvimos a mesma frase, de que o Amapá está longe dos grandes mercados. Longe dos centros de consumo. Longe das decisões econômicas. Longe dos investimentos. Longe das oportunidades. Digo, que talvez tenha chegado a hora de invertermos essa lógica. Talvez o problema nunca tenha sido a distância. Talvez o problema tenha sido a forma como enxergamos nossa posição no mapa.
Enquanto o Brasil sempre olhou para o Sul e para o Sudeste como portas de saída para o mundo, poucos perceberam que existe uma porta de entrada para a Europa localizada no extremo norte do país. Essa porta tem nome, endereço e potencial econômico gigantesco. Chama-se Oiapoque. Pode parecer exagero. Não é. Explicarei o porquê.
O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, cuja negociação se arrastou por mais de duas décadas, possui potencial para redefinir os fluxos comerciais, reduzir custos logísticos, criar novos mercados, além de abrir oportunidades inéditas para os estados que souberem se posicionar estrategicamente. E entre todos os estados brasileiros, nenhum possui uma condição geográfica tão singular quanto o Amapá.
Estamos cansados de saber, que somos a única fronteira terrestre do Brasil com a União Europeia. Enquanto muitos enxergam a Guiana Francesa apenas como um território vizinho, a verdade é que ela é França. E sendo França, é Europa.
Quando um caminhão cruza a Ponte Binacional Franco-Brasileira, ele não está apenas atravessando uma fronteira internacional. Ele está entrando em território europeu, e o interessante é que poucos lugares no planeta possuem uma característica geopolítica tão peculiar. Por isso acredito que estamos diante de uma oportunidade histórica.
Uma oportunidade que pode transformar a economia do estado, gerar empregos, atrair investimentos e reposicionar o Amapá dentro do cenário nacional. Mas para compreender o tamanho dessa oportunidade, precisamos primeiro entender a dimensão do acordo Mercosul-União Europeia.
As negociações começaram oficialmente em 1999 e levou mais de vinte anos de discussões, impasses e de disputas envolvendo agricultura, indústria, meio ambiente, tarifas, padrões sanitários e interesses políticos. Ao longo desses anos, diversos governos passaram pelo Brasil, pela França, pela Alemanha, pela Argentina e pelos demais países envolvidos.
Não por menos, muitos chegaram a acreditar que o acordo jamais sairia do papel. Mas ele avançou. E o que está sendo construído é um dos maiores espaços de livre comércio do planeta. Juntos, Mercosul e União Europeia representam mais de 700 milhões de consumidores. Estamos falando de um mercado que movimenta trilhões de dólares por ano. Um mercado com enorme capacidade de consumo e elevado poder aquisitivo.
O acordo prevê redução ou eliminação gradual de tarifas para a ampla maioria dos produtos comercializados entre os dois blocos. Deixando em termos práticos, milhares de produtos brasileiros poderão acessar mercados europeus pagando menos impostos, tornando-se mais competitivos.
A consequência natural disso, é o aumento do comércio. Mas é importante que você entenda um outro detalhe que pouca gente está discutindo. Toda vez que um produto é vendido, alguém precisa transportar, alguém precisa armazenar, alguém precisa despachar, alguém precisa distribuir, alguém precisa financiar, alguém precisa segurar a carga, alguém precisa operar a logística, e é justamente nesse ponto que o Amapá pode encontrar seu maior espaço.
Quando falamos em exportação para a Europa, a imagem que normalmente surge é a de grandes navios saindo de Santos, Paranaguá, Itajaí ou Rio Grande. Porém, existe uma nova lógica possível. Uma lógica baseada na integração entre Brasil, Amapá, Guiana Francesa e União Europeia.
Hoje, boa parte dos produtos consumidos na Guiana Francesa atravessa o Oceano Atlântico. São produtos embarcados na França continental ou em outros territórios europeus. Muitos percorrem milhares de quilômetros para abastecer uma população de pouco mais de 300 mil habitantes.
Isso cria uma situação curiosa. Em vários casos, produtos fabricados a poucos milhares de quilômetros dentro do próprio Brasil poderiam chegar mais rapidamente e com custos menores. Esta é uma oportunidade extraordinária para o empresariado amapaense. E quando digo empresariado amapaense, não estou falando apenas de quem produz. Estou falando de quem transporta, de quem armazena, de quem exporta, de quem presta serviços e de quem atua no comercio exterior.
Vamos imaginar um exemplo simples de uma indústria paulista que produz alimentos industrializados. Outra, sediada em Minas Gerais que produz materiais de construção. Ainda, uma terceira, localizada no Paraná que produz móveis. Todas possuem interesse em vender para a Guiana Francesa. Quem pode organizar essa operação? Quem pode consolidar essas cargas? Quem pode criar centros de distribuição? Quem pode prestar serviços aduaneiros? Quem pode armazenar os produtos antes da exportação? Quem pode conectar compradores franceses a fornecedores brasileiros? A resposta é retorica, o Amapá.
E isso nos leva a um exercício interessante. Vamos imaginar que apenas 500 empresas brasileiras passem a utilizar a rota do extremo norte para acessar mercados da Guiana Francesa e regiões próximas, como Suriname e Republica Cooperativa da Guiana. Suponhamos que cada empresa movimente apenas R$ 2 milhões por ano em operações comerciais vinculadas ao corredor logístico do Amapá. Estaríamos falando de R$ 1 bilhão em movimentação econômica anual.
Agora imagine o impacto disso sobre transportadoras, armazéns, postos de combustível, hotéis, restaurantes, oficinas, seguradoras, despachantes aduaneiros, escritórios de contabilidade, tradings e empresas de logística. A riqueza não estaria apenas no produto exportado. Ela estaria em toda a cadeia econômica criada ao redor dele, e foi exatamente assim que vários polos logísticos cresceram no mundo, pois não começaram produzindo riqueza, começaram movimentando riqueza.
Quando observamos o mapa, percebemos que o norte do Brasil se encontra geograficamente mais próximo da Europa Ocidental do que diversas regiões exportadoras localizadas no extremo sul do país. Isso não significa que as rotas tradicionais deixarão de existir. Mas significa que determinadas operações podem encontrar vantagens logísticas importantes ao utilizar corredores mais próximos do Atlântico Norte.
Além disso, existe um aspecto que considero ainda mais relevante. O Amapá pode se transformar não apenas em exportador, ele pode se transformar em um grande distribuidor internacional. Digo isso, porque quando limitamos o nosso pensamento apenas à logica da exportação, estamos falando apenas em vender produtos, quando falamos em distribuição, ampliamos a ideia para o controle de fluxos comerciais. Essa mudança de percepção significa na atração de novas empresas, na geração de empregos permanentes, consequentemente, resulta, no aumento da arrecadação e receita estatal, por fim, constrói influencia econômica nacional.
Deixando essa leitura ainda mais clara para você, exemplificarei, apenas alguns dos milhares de produtos que poderiam utilizar essa rota, pois, praticamente, todos aqueles que possuem demanda na Guiana Francesa e em mercados associados, são possíveis de negociação. Café, açúcar, arroz, feijão, macarrão, biscoitos, água mineral, refrigerantes, produtos lácteos, materiais de construção, cerâmicas, tubulações, tintas, ferragens, móveis, colchões, equipamentos agrícolas, máquinas, peças automotivas, produtos de higiene, produtos de limpeza, medicamentos, equipamentos hospitalares, equipamentos para mineração, equipamentos para construção civil, pescados, e essa lista se estende por milhares de produtos.
Talvez, neste momento, você esteja se perguntando, mas se tudo parece tão promissor, por que isso ainda não aconteceu?
Na minha avaliação existem dois obstáculos centrais. O primeiro é infraestrutura, cite este ponto primeiro, porque nenhum corredor comercial se torna competitivo sem logística eficiente. Somos deficientes na infraestrutura viária, com a única via de acesso terrestre (BR-156) com obra inconclusa, há mais de 80 anos. Nossas áreas de armazenagem são praticamente inexistentes, sem falar na infraestrutura alfandegária. Sem um ambiente operacional capaz de lidar com grandes volumes de carga, dificilmente, aproveitaremos todo o potencial econômico.
Destaco como o segundo obstáculo, a ausência de visão estratégica. Me refiro a este aspecto, porque o Amapá ainda não possui um projeto de estado voltado para se tornar um corredor logístico internacional. No meu entender, faltam metas claras, faltam investimentos direcionados, falta coordenação institucional e falta transformar uma vantagem geográfica em uma política pública permanente.
E isso é particularmente preocupante porque oportunidades históricas possuem prazo de validade. Quem se prepara primeiro ocupa espaço, quem demora perde mercado e quem não investe vira espectador.
Não são poucos os exemplos, que ao longo da história, conseguiram prosperar, simplesmente porque compreenderam sua posição geográfica estratégica. Panamá fez isso, Singapura fez isso, Dubai fez isso, Roterdã fez isso. Essas regiões não enriqueceram apenas produzindo, enriqueceram conectando mercados. Óbvio, que guardadas as devidas proporções, o Amapá possui uma oportunidade semelhante,
Como amapaense e como alguém que acompanha de perto a realidade de Oiapoque, tenho convicção de que estamos diante de uma das maiores oportunidades econômicas da nossa geração, seguida pelo potencial da indústria de petróleo e gás.
Me atrevo a dizer, que daqui a vinte anos olharemos para trás e perceberemos que este foi o momento em que o Amapá iniciou um novo ciclo de desenvolvimento, ou talvez descubramos que deixamos escapar uma oportunidade que estava diante dos nossos olhos. A diferença entre um cenário e outro não será determinada por Brasília, será determinada pelas escolhas que fizermos aqui, porque o maior ativo econômico do Amapá está em seu mapa, em sua posição privilegiada.
E Qual será o nosso futuro? O tempo dirá.

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Yuri Alesi 7 de junho de 2026 7 de junho de 2026
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