Estou a aprender catar palavras
dizia o murmúrio do riacho.
E as palavras ao piano desaguavam
canções e amores não confessos,
gerando, em um só verso,
rumores de cachoeiras
e remansos de saudades.
Nos jornais falados ou impressos
gotejavam cenários os mais diversos,
ora glórias reluzentes
dos sujeitos e valores ausentes,
ora ruínas arrepiantes
de catástrofes climáticas e humanas
em manchetes arroladas
nas ribanceiras em deslizes
por escavações de palavras perdidas
nas rochas com fendas feridas
sem o verdor de suas encostas.
Prossegue o jardineiro em sua teia
levando água em conchas transbordantes
sementes em lâminas celulares,
a celulose de plantas verdejantes,
que se faz repositório, livro,
de trovoadas e relâmpagos
lançados pela mente humana
para iluminar o azul dos céus
e as sombras das grotas.
“Pianam-se” palavras e métricas.
Desfaz-se antigos véus.
Colhem-se seixos,
ou seriam axiomas…
ou metáforas …
Na transparência dos riachos
abastecidos pelas chuvas
das trovoadas de palavras.

