A radicalização da disputa política brasileira entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o campo bolsonarista alcança um estágio preocupante, no qual interesses partidários parecem, em determinadas circunstâncias, sobrepor-se aos interesses nacionais. A recente celebração de setores do bolsonarismo diante de medidas adotadas pelos Estados Unidos que afetam diretamente a percepção internacional do Brasil reacendeu um debate essencial sobre patriotismo, soberania e responsabilidade política. A política democrática pressupõe oposição firme, crítica vigorosa e divergência permanente. O que não admite é a instrumentalização de agentes externos para enfraquecer o próprio país em benefício de projetos eleitorais domésticos. Como ensinava o cientista político Samuel Huntington, a estabilidade das democracias depende da lealdade dos atores políticos às instituições nacionais, mesmo quando disputam o poder de forma intensa. Rui Barbosa, por sua vez, advertia que a pátria não pertence a governos nem a partidos, mas representa uma construção permanente das gerações. Quando interesses eleitorais passam a orientar condutas capazes de fragilizar a posição internacional do Estado, a política deixa de ser instrumento de construção nacional para transformar-se em mecanismo de erosão institucional.
A classificação de organizações criminosas como o Comando Vermelho e o PCC por autoridades estrangeiras pode parecer, à primeira vista, uma medida voltada exclusivamente ao combate ao crime organizado. Entretanto, especialistas em relações internacionais alertam que decisões dessa natureza produzem consequências geopolíticas complexas e, muitas vezes, imprevisíveis. O ex-chanceler Celso Amorim já advertiu reiteradamente que a segurança nacional não pode ser terceirizada nem submetida aos interesses estratégicos de outras potências. Na mesma direção, o diplomata Rubens Ricupero sustenta que a soberania contemporânea exige autonomia decisória e capacidade de formular respostas próprias aos desafios internos. Quando atores políticos nacionais comemoram iniciativas externas que possam justificar futuras pressões diplomáticas, econômicas ou políticas sobre o Brasil, surge uma questão inevitável: onde termina a oposição legítima e começa a irresponsabilidade política? O historiador e cientista político José Murilo de Carvalho observava que a consolidação de uma nação depende da existência de um sentimento compartilhado de pertencimento. Quando lideranças nacionais celebram constrangimentos externos por enxergarem neles ganhos conjunturais, corre-se o risco de enfraquecer justamente esse pacto simbólico que sustenta a ideia de Estado nacional.
O fenômeno não é exclusivo do Brasil. O historiador britânico Tony Judt observou que democracias polarizadas frequentemente produzem lideranças dispostas a sacrificar consensos mínimos em nome da vitória política. O filósofo Karl Popper advertia que os inimigos da sociedade aberta nem sempre se apresentam como adversários declarados da democracia; muitas vezes surgem travestidos de seus defensores mais apaixonados. No caso brasileiro, chama atenção a naturalidade com que determinados setores políticos parecem encarar episódios capazes de gerar constrangimentos internacionais ao país, desde que produzam desgaste ao governo adversário. Trata-se de uma lógica perigosa, pois substitui o debate programático pela política do “quanto pior, melhor”. O filósofo espanhol José Ortega y Gasset advertia que a degradação da vida pública começa quando grupos políticos deixam de pensar no destino coletivo e passam a agir exclusivamente em função de seus próprios interesses. A substituição da razão de Estado pela razão partidária é um dos sinais mais evidentes do empobrecimento das democracias. A nação deixa de ser o espaço comum de convivência política para transformar-se em mera peça de uma guerra permanente pelo poder.
A história demonstra que países fortes são aqueles cujas lideranças compreendem a diferença entre adversários e inimigos. O cientista político Norberto Bobbio ensinava que a democracia depende do reconhecimento mútuo entre forças políticas concorrentes, jamais da destruição recíproca. O Brasil enfrenta desafios gigantescos na segurança pública, na economia e na sua inserção internacional. Nenhum deles será resolvido pela aposta na desestabilização institucional ou pela busca de apoio externo para constranger o próprio Estado brasileiro. O combate ao crime organizado é uma necessidade imperativa, mas deve ser conduzido sob a liderança das instituições nacionais e em conformidade com os interesses permanentes da República. Quando a disputa eleitoral passa a justificar qualquer expediente, inclusive aqueles que fragilizam a imagem, a autonomia e a capacidade de decisão do país, o problema deixa de ser partidário e passa a ser civilizacional. Nessas circunstâncias, a vitória de um grupo político pode representar a derrota de algo muito maior: a confiança coletiva nas instituições, a autoridade internacional do Estado e a própria ideia de projeto nacional. Afinal, quando a política celebra seus triunfos à custa do país, a nação inteira acaba derrotada.
VITÓRIA POLÍTICA, DERROTA DO PAÍS

