(texto adaptado do Rer. Marcos Weide)
Vocês têm corrido atrás do vento? Como tem sido a nossa vida? Pura ilusão, tentando segurar o vento em nossas mãos? O que dá valor à vida? O que se deve procurar? Quais as coisas que podemos dar em troca de uma vida feliz? Ou talvez, onde está a verdadeira felicidade?
Vejamos que nove são estas palavras do texto de Eclesiastes para quem não consegue tempo para o que é importante, ou melhor, não quer ver o que é importante. Diz-nos o texto de Eclesiastes 1.2; 12-18; 2.18-26: “(1) São estas as palavras do Sábio, que era filho de Davi e rei em Jerusalém… (12) Eu, o Sábio, fui rei de Israel, em Jerusalém. (13) E resolvi examinar e estudar tudo o que se faz neste mundo. Que serviço cansativo é este que Deus nos deu! (14) Eu tenho visto tudo o que se faz neste mundo e digo: tudo é ilusão. É tudo como correr atrás do vento. (15) Ninguém pode endireitar o que é torto, nem fazer contas quando faltam os números. (16) E pensei assim: “Eu me tornei um grande homem, muito mais sábio do que todos os que governaram Jerusalém antes de mim. Eu realmente sei o que é a sabedoria e o que é o conhecimento.” (17)Assim, procurei descobrir o que é o conhecimento e a sabedoria, o que é a tolice e a falta de juízo. Mas descobri que isso é o mesmo que correr atrás do vento. (18)Quanto mais sábia é uma pessoa, mais aborrecimentos ela tem; e, quanto mais sabe, mais sofre“. E depois ainda o escritor de Eclesiastes arremata dizendo que: “(18) Tudo o que eu tinha e que havia conseguido com o meu trabalho não valia nada para mim. Sabia que teria de deixar tudo para o rei que ficasse no meu lugar. (19) E ele poderia ser um sábio ou um tolo — quem é que sabe? No entanto, ele seria o dono de todas as coisas que eu consegui com o meu trabalho e ficaria com tudo o que a minha sabedoria me deu neste mundo. Tudo é ilusão. (20) Então eu me arrependi de ter trabalhado tanto e fiquei desesperado por causa disso. (21) A gente trabalha com toda a sabedoria, conhecimento e inteligência para conseguir alguma coisa e depois tem de deixar tudo para alguém que não fez nada para merecer aquilo. Isso também é ilusão e não está certo! (22) Nós trabalhamos e nos preocupamos a vida toda e o que é que ganhamos com isso? (23) Tudo o que fazemos na vida não nos traz nada, a não ser preocupações e desgostos. Não podemos descansar, nem de noite. É tudo ilusão. (24) A melhor coisa que alguém pode fazer é comer e beber e se divertir com o dinheiro que ganhou. No entanto, compreendi que mesmo essas coisas vêm de Deus. (25) Sem Deus, como teríamos o que comer ou com que nos divertir? (26) Ele dá sabedoria, conhecimento e felicidade às pessoas de quem ele gosta. Mas Deus faz com que os maus trabalhem, economizem e ajuntem a fim de que a riqueza deles seja dada às pessoas de quem ele gosta mais. Tudo é ilusão. É tudo como correr atrás do vento.”
OO texto de Eclesiastes diz que a gente corre de um lado pra outro, preocupado com as coisas do dia a dia, se vamos conseguir pagar as contas, se nosso salário vai aumentar, se vamos ajuntar riquezas necessárias para termos a segurança financeira que todos nós sempre desejamos. Mas tudo é ilusão… porque a vida da gente passa rápido, e quando menos se espera Deus nos chama deste mundo. E tudo aquilo que conquistamos fica aqui… é passado para outra pessoa… muitas vezes não tão sábia quanto aquela que adquiriu tudo, como bem lembra o rei Salomão, e também, como podemos notar do nosso cotidiano. Todos devem conhecer casos em que os pais adquirem grandes propriedades e bens, e os filhos acabam colocando tudo fora. Às vezes, até mesmo enquanto os pais estão vivos.
Outro texto que nos lembra a questão da brevidade da vida e a ilusão humana em ter coisas ou correr atras de coisas com duração passageira é o Evangelho de Lucas 12.13-20: “(13) Um homem que estava no meio da multidão disse a Jesus: — Mestre, mande o meu irmão repartir comigo a herança que o nosso pai nos deixou. (14) Jesus disse: — Homem, quem me deu o direito de julgar ou de repartir propriedades entre vocês? (15) E continuou, dizendo a todos: — Prestem atenção! Tenham cuidado com todo tipo de avareza porque a verdadeira vida de uma pessoa não depende das coisas que ela tem, mesmo que sejam muitas. (16) Então Jesus contou a seguinte parábola: — As terras de um homem rico deram uma grande colheita. (17) Então ele começou a pensar: “Eu não tenho lugar para guardar toda esta colheita. O que é que vou fazer? (18) Ah! Já sei! — disse para si mesmo. — Vou derrubar os meus depósitos de cereais e construir outros maiores ainda. Neles guardarei todas as minhas colheitas junto com tudo o que tenho. (19) Então direi a mim mesmo: ‘Homem feliz! Você tem tudo de bom que precisa para muitos anos. Agora descanse, coma, beba e alegre-se.” (20)Mas Deus lhe disse: “Seu tolo! Esta noite você vai morrer; aí quem ficará com tudo o que você guardou?””
No evangelho citado hoje também tem o assunto da herança. Jesus foi confrontado com um problema: “Mestre, mande o meu irmão repartir comigo a herança que o nosso pai nos deixou”. Nas leis judaicas, o irmão mais velho tinha direito a duas vezes a parte do irmão mais novo. Não se sabe qual dos irmãos que veio conversar com Jesus, nem se sabe se eram apenas dois. Mas uma coisa dá para perceber: Alguém se viu prejudicado, injustiçado com a partilha da herança. Algo que é bastante comum de acontecer. Eu mesmo tenho amigos muito próximos que não se dão entre os familiares por conta de um pedaço de terra que ficou meio enrolado na hora da partilha dos bens de um parente falecido.
Mas em vez de tentar resolver a desavença entre os irmãos pela aplicação da justiça, Jesus vai mais longe e expõe o problema dentro do problema: nós somos mesmo proprietários daquilo que nos cabe por direito?
“Homem, quem me deu o direito de julgar ou de repartir propriedades entre vocês?” Jesus se nega a assumir o papel de “partidor” porque o seu papel é o de “reconciliador”. O ministério de Jesus é de reconciliação de Deus com o ser humano. Por isso Jesus vai em busca da motivação por trás das atitudes. Então aponta o problema que está oculto dentro do problema: “Prestem atenção! Tenham cuidado com todo o tipo de avareza porque a verdadeira vida de uma pessoa não depende das coisas que ela tem, mesmo que sejam muitas”.
Apontando para isto, Jesus abre mão de ser, um moralista para ser o pregador da Palavra de Deus, que vai ao ponto de separar alma e espírito, revelando o mais íntimo nas motivações que geram atitudes, que por sua vez geram comportamentos e palavras. E Jesus conta uma parábola, conhecida como a “parábola do rico sem juízo”, parábola esta vista acima.
Jesus pinta o quadro de um homem que fala consigo mesmo e que pensa em tudo o que tem como “minhas colheitas”, “meus depósitos”. E depois de ter tudo bem guardado e seguro diz a si mesmo: “Homem feliz! Você tem tudo de bom que precisa para muitos anos. Agora descanse, coma, beba e alegre-se”.
Com isso Jesus lembra que o mundo da abundância de bens, tal como os irmãos em briga pela herança o entendiam, é um mundo muito pobre de vida, porque isola o indivíduo e reduz à solidão. Ao pensar em tudo o que tem como “meu”, (minha colheita, minha casa, minha mulher, meu marido, meus filhos) os dois irmãos, e por extensão, as pessoas em geral, levantam barreiras invisíveis entre si e os que se aproximam delas, e começam a existir num mundo isolado onde o outro sempre é visto com desconfiança, como uma ameaça ao “meu”. E neste vazio, as coisas parecem preencher o espaço, ocupar o tempo e dar algum sentido à vida. Mas este sentido que o dinheiro e bens dão à vida, que sentido é este?
Jesus mostra que o estar ocupado com o “meu” pode até ter momentos espetaculares como o “derrubar e construir coisas novas”. Derrubar o que existe e progredir, melhorar, aumentar (como queremos fazer até mesmo com nosso templo). É muito comum ouvir homens e mulheres ocupados com a missão de dar “tudo” à família trabalhando exaustivamente, sacrificando-se por isso.
Mas muitos não se dão conta que aquilo que fazem é aquilo que decidiram “falando consigo mesmos”, decidindo pelos outros, do mesmo jeito como cada um dos irmãos queria fazer.
O homem rico da parábola não se dá conta da sua solidão. “Eu sei”, “eu consegui”. Só a sua própria alma ainda está disponível para lhe dar atenção. Ninguém mais consegue estar perto dele e ouvir o homem que sempre sabe, que sempre tem razão e cujo sucesso parece depender dele mesmo. A satisfação parece tão grande que tem som de palavras definitivas: “Agora descanse, coma, beba, alegre-se”.
Mas este sonho lindo imaginado em torno do sucesso pessoal explode com uma palavra vinda da parte de Deus: “Seu tolo! Louco! Esta noite você vai morrer; aí quem ficará com tudo o que você guardou?” Aquele homem não havia percebido que a vida e tudo o que lhe pertence, na verdade, é um empréstimo que Deus graciosamente oferece. Em vida, ele esquecera de perguntar a Deus: “Para que e para quem recebi este empréstimo tão generoso?” Deus, na sua Palavra, lhe teria ensinado muitos destinos diferentes para os seus bens, de modo que ele poderia ser mais feliz e menos ocupado com as suas posses. Deus nos chama para uma felicidade compartilhada, para que não acabemos sozinhos, tendo somente a alma para ouvir o que temos a dizer.
“Isto é o que acontece com aqueles que juntam riquezas para si mesmos, mas para Deus não são ricos”. Reunir riquezas para dentro de Deus é o que Jesus vai dizer no dia do juízo: “Tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber…” Deus de nada necessita, mas o Deus que se revelou em Jesus Cristo assumiu as carências e pecados de todos. Agora ele vive em seus crentes que o revelam ao mundo pelos dons que lhes concede. Mas também vive nos mesmos crentes que, em suas fraquezas, angústias e opressões buscam o amor que derramou sobre a sua igreja, o seu corpo.
A nossa vida está escondida com Cristo. Pensemos nas coisas que são do céu. Busquemos em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, e todas as outras coisas… tudo o que precisamos para nossa vida, Deus nos acrescentará, de acordo com a nossa necessidade e a sua vontade.
A partir de uma questão de herança, Jesus leva o injustiçado a não concentrar a sua atenção na injustiça, mas faz com que ele reflita (e nós também) na realidade de que os bens são uma dádiva de Deus que, se mal administrados, podem causar divisões e solidão. Mas também podem ser administrados a partir da fé, como presentes de Deus para o bem comum. Já que as coisas materiais fazem parte da nossa vida e são presentes de Deus, vamos administrá-las para Deus, porque muito mais valioso do que a posse da herança é se reconhecer como um herdeiro da vida verdadeira. Em nome de Jesus. Amém.