O brasileiro é movido pela promessa de um futuro, pela ideia do amanhã e pelo imaginário dos finais felizes. A esperança mora em muitos lugares e é por isso que qualquer coisa que possa simbolizar dias melhores é o suficiente para causar uma distração tremenda da realidade tão caótica!
Já falei algumas vezes sobre a relação do brasileiro com o carnaval, como vivemos e nos relacionamos com a folia, mas poderia citar vários outros momentos em que nos embriagamos de alegria, algo tão escasso no dia a dia: festa de padroeira, festa junina, natal, ano novo, festivais regionais… qualquer data, para os brasileiros, é passível de grandes celebrações e festividades. A gente aproveita toda e qualquer chance de se distrair das mazelas da vida, de sorrir pelo que for, de cantar e sonhar junto com quem a gente ama.
A Copa do Mundo é um bom exemplo disso. É bem mais que futebol, que torcer pelo país, que assistir ao esporte… Existe algo de muito mágico na torcida de milhões de pessoas para que algo aconteça, na esperança compartilhada, no grito em conjunto. É parecido com o que já conversamos sobre carnaval e a música cantada em coro: a torcida de uma nação vira uma oração coletiva. É desejo de todos, sonho sonhado junto.
O chiado baixinho em certos momentos, o grito de desespero em outros… A gente compartilha até a ansiedade quando alguém faz uma passagem de bola genial que nos deixa com a expectativa de um gol. Em segundos, tudo muda. Um jogador, num ímpeto de coragem, chuta a bola. Às vezes erra, às vezes acerta, mas o que mais importa, no fim, são os momentos em que nos vemos vulneráveis e entregues aos sentimentos mais intensos que tudo isso é capaz de despertar. É muita energia envolvida. O futebol engloba euforia, raiva, alegria, tristeza, decepção, esperança… Tudo se mistura e faz a experiência de ser torcedor, ser exatamente do jeito que é.
Assisti ao jogo do Brasil com o Japão do aeroporto Galeão, prestes a embarcar para a Europa. Assisti de Hvar, na Croácia, o jogo que nos eliminou há praticamente um mês! Nos dois casos, a gritaria foi certa e a ansiedade, absoluta. Na Croácia, o momento de frustração após a eliminação da Seleção Brasileira foi vivido com muitos brasileiros que também viajavam pelos bálcãs. Andei pensando: o que nos une, mesmo, não é a torcida, o futebol, a copa, a esperança, mas o nosso país. O denominador comum é, na verdade, termos nascido na Pátria Amada.
Parece que temos um radar: a gente se reconhece em qualquer lugar e situação, independentemente do sotaque. A gente se ama em todos os lugares do mundo e isso nos faz esquecer até da polaridade política, das diferenças, das rixas entre os estados ou dos times de futebol. Acho incrível que qualquer breve encontro com brasileiros em contextos assim, fora do país, inclua uma conversa trivial semelhante, que começa com a surpresa de sermos brasileiros e se desdobra em que cidade vive, para onde vai, quantos dias fica, até chegar, finalmente, o papo sobre futebol.
É que, constantemente, é esse o esporte que conta a história de tantas pessoas e faz parte da vida da maioria dos brasileiros. Ele existe no dia a dia, no jogo da escola quando criança, na partida semanal com os amigos, na conversa do ônibus, no telão dos bares e restaurantes, no trânsito que para o Rio de Janeiro em dia de jogo no Maracanã, na fila na porta da loja oficial para a nova versão da camisa, na fama e influência dos jogadores, nos contratos milionários, nos grandes diretores e treinadores, nas escolinhas de futebol que semeiam sonho em todos os cantos do país, nas gincanas escolares e nos torneios locais e etc. Em tudo, no Brasil, existe futebol.
É esse o esporte que atravessa a maior parte das histórias dos brasileiros. Por isso que termos sido eliminados da copa foi tão sério. Foi o fim do sonho de milhões de brasileiros que acreditavam que isso era possível em 2026. Foi o fim da esperança, da festa, da cerveja, da comemoração, dos momentos em família ou entre amigos… Foi não conseguir honrar a memória daqueles que não estão mais aqui, mas esperavam por esse momento em vida! Existe uma quebra de expectativa gigantesca, mas mais do que o simples fato de ganhar ou perder, esse fim representa a anulação da chance de se ter pelo que comemorar.
Me pergunto: o que nos faz continuar torcendo com tanto fervor e amor, ano após ano, em todos os campeonatos possíveis? As nossas orações são ouvidas ou os brasileiros são o lado abandonado da missa? O que a gente faz agora, com a oração em coro? O que a gente faz com a própria oração? Ainda é permitido sonhar?
O futebol atravessa a minha história porque eu nasci em ano de copa: 1998. Sediada na França, foi a primeira a contar com 32 seleções e a final entre Brasil e França aconteceu no dia 12 de Julho, apenas dois dias antes do meu aniversário. Apesar dos nossos craques em campo, a seleção francesa venceu por 3 a 0 e conquistou o seu primeiro título mundial.
No ano em que nasci, perdemos o jogo contra a França e ficamos em segundo lugar. Na copa seguinte, em 2002, o Brasil venceu a Alemanha na final do campeonato, levando o quinto título mundial! Esse ano, perdemos na semana anterior ao meu aniversário de 28 anos e, apenas alguns dias depois, vimos a final, com a Argentina perdendo para a Espanha.
Sempre que uma copa se aproxima, penso que o Brasil é o país com mais títulos da Copa do Mundo da FIFA. Isso me tranquiliza porque não me deixa esquecer, nem por um segundo, a força que esse esporte tem em todos os cantos do país.
Ainda assim, sei que desanima perder, não ter pelo que comemorar, especialmente em um país que vive pela expectativa de dias melhores que ontem. É por isso que é tão importante que os brasileiros se lembrem de continuar sonhando! Com o amanhã, com o depois, com a próxima estação, com o próximo ano, com a próxima copa…
O sonho nosso de cada dia

