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A Gazeta do Amapá > Blog > Colunista > Araciara Macedo > A Barbie de carne e osso
Araciara Macedo

A Barbie de carne e osso

Araciara Macedo
Ultima atualização: 26 de julho de 2026 às 08:55
Por Araciara Macedo 4 horas atrás
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A vida de jornalista me levou a lugares que muita gente jamais pisaria por vontade própria. Além das redações, onde o café substitui o sangue nas veias e o fechamento do jornal é tratado como uma modalidade olímpica, também atuei como assessora de imprensa de órgãos públicos.
Entre todos eles, um marcou minha memória de forma definitiva: o pronto-socorro.
É o único de Macapá, estado do Amapá, local onde moro. Consequentemente, era também o ponto de encontro de todas as desgraças da cidade. Se alguém espirrasse muito forte, acabava indo parar lá. O movimento era tão intenso que, em alguns dias, eu desconfiava que havia mais gente dentro do hospital do que andando pelas ruas.
O segundo andar tinha um apelido nada animador: Faixa de Gaza.
Não era exagero. Era o setor onde chegavam vítimas de acidentes de trânsito, esfaqueamentos, baleados, brigas de bar, quedas, atropelamentos e toda sorte de infortúnios que fazem a gente agradecer por ter conseguido apenas tropeçar no tapete de casa.
Era um ambiente pesado. Muito pesado.
Mas eu sempre achei que, se não pudesse diminuir a dor física de ninguém, talvez conseguisse aliviar um pouquinho a tristeza. Então eu fazia aquilo que jornalista também sabe fazer: conversava.
Visitava os pacientes, contava histórias, fazia piadas, algumas boas, outras nem tanto, e tentava arrancar um sorriso de quem tinha esquecido que ainda sabia sorrir.
Foi nesse cenário que conheci uma garotinha de pouco mais de seis anos.
Ela havia sofrido um acidente gravíssimo e perdera o calcanhar de um dos pés. Enquanto a equipe fazia um curativo doloroso, ela tentava se distrair abraçando uma Barbie já bastante castigada pelo tempo. A boneca tinha mais cicatrizes que muitos pacientes daquele andar.
Percebi que ela olhava para a Barbie como quem procurava um lugar seguro para fugir dali.
Resolvi entrar na brincadeira.
— Você sabia que eu tenho uma Barbie de verdade lá em casa?
Ela nem levantou a cabeça.
— Tem nada.
— Tenho, sim.
— Mentira.
— Juro.
Ela me encarou desconfiada, daquele jeito que só criança consegue fazer, como se estivesse analisando cada palavra para decidir se eu era apenas uma adulta inventando moda.
No fim do curativo, já mais tranquila, fez o pedido que eu não esperava.
— Então eu quero conhecer sua Barbie de verdade.
Pronto.
Agora eu tinha um pequeno problema diplomático.
Acontece que minha filha, Anna Ariel, era uma figura.
Naquela época usava os cabelos completamente descoloridos, completamente brancos, e, quando saía, colocava lentes de contato azuis, se vestia cm estilo e a maquiagem era sempre especial. Parecia aquelas bonecas que saem da caixa prontas para estrelar propaganda de brinquedo.
Cheguei em casa e fiz uma proposta.
— Filha… você topa ir trabalhar comigo amanhã?
Ela perguntou por quê. Dei uma desculpa qualquer e ela aceitou na hora.
No dia seguinte, fomos ao hospital.
Quando a menina viu Anna Ariel entrando no quarto, os olhos ficaram enormes. A boca abriu devagarzinho. Ela olhava para minha filha, depois para mim, depois para a boneca que segurava nas mãos, como se estivesse recalculando todas as leis da natureza.
Acho que, naquele instante, ela realmente acreditou que as Barbies existiam.
Minha filha conversou com ela, sorriu, brincou, tirou fotos e fez daquele dia um momento muito mais leve do que qualquer remédio conseguiria proporcionar.
Às vezes, um curativo fecha um ferimento.
Um gesto fecha um medo.
Alguns dias depois, a menina recebeu alta.
Imaginei que nunca mais a veria.
Ledo engano.
Ela apareceu na porta da minha sala.
Veio decidida.
Olhou para mim e perguntou, com toda a seriedade do mundo:
— A senhora vende a sua Barbie?
Confesso que, por alguns segundos, considerei todas as respostas possíveis.

Disse apenas que precisava pensar.
Ela foi embora com a mãe empurrando a cadeira de rodas.
E eu fiquei rezando para que ela nunca mais precisasse voltar ao hospital para tentar negociar a compra da minha filha.
Os anos passaram.
Minha Barbie cresceu.
Os cabelos brancos deram lugar a fios castanhos com mechas cor-de-rosa. As lentes azuis ficaram esquecidas em alguma gaveta. Hoje ela é uma mulher, dona da própria história, dos próprios sonhos e das próprias escolhas.
Mas, para mim…
Ela continua sendo minha boneca humana.
E talvez a lembrança mais bonita que um hospital, mesmo aquele apelidado de Faixa de Gaza, conseguiu me dar.
Porque, às vezes, no lugar onde a dor faz mais barulho, basta uma Barbie de carne e osso para lembrar que a esperança também sabe dar plantão.

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Araciara Macedo 26 de julho de 2026 26 de julho de 2026
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