Depois de uma semana para amadurecer minhas impressões, decidi fazer uma segunda análise de A Odisseia, de Christopher Nolan.
A qualidade técnica do filme é inquestionável. A fotografia, a trilha sonora imersiva, a direção, os efeitos práticos e o uso extremamente contido de recursos digitais colocam a obra entre as produções mais impressionantes do cinema contemporâneo.
As críticas, porém, concentraram-se em outros aspectos: a fidelidade ao poema de Homero, as escolhas de elenco, a frieza emocional da narrativa, a escassa presença de atores gregos em uma história profundamente grega e, principalmente, a estrutura narrativa não linear.
Nolan sempre preferiu construir significado pela montagem em vez de seguir uma cronologia tradicional. Foi assim em Memento, Dunkirk e Oppenheimer. Seu interesse não está apenas em contar uma história, mas em fazer o espectador reconstruí-la.
O problema é que A Odisseia é, por essência, uma jornada de vinte anos. Parte da crítica argumenta que essa fragmentação compromete justamente a percepção da longa passagem do tempo. Quando Odisseu finalmente retorna a Ítaca, alguns espectadores não sentem o peso de duas décadas de ausência. Os vinte anos parecem passar rápido demais.
Contudo, a própria Odisseia de Homero também não é narrada de forma linear. O poema começa com Telêmaco; Odisseu aparece apenas depois; e boa parte das aventuras mais conhecidas, como o Ciclope, Circe e as Sereias, é contada em retrospectiva pelo próprio herói na corte dos feácios. A estrutura fragmentada, portanto, não é uma invenção de Nolan. A diferença está em sua execução.
Outra observação recorrente é que o filme parece apressado e longo ao mesmo tempo. É um paradoxo interessante. Há acontecimentos demais para serem plenamente absorvidos, enquanto poucas cenas permanecem tempo suficiente para adquirir verdadeiro peso dramático. O resultado é uma sensação simultânea de excesso e superficialidade.
Toda adaptação precisa decidir qual será seu eixo. A Odisseia pode ser lida como uma aventura marítima, uma história sobre identidade, um tratado sobre astúcia, uma meditação sobre o lar, um épico sobre justiça e ordem ou uma profunda reflexão sobre a hospitalidade sagrada, a xenia.
Foi justamente este último aspecto que Nolan escolheu enfatizar.
Na tradição homérica, a hospitalidade não era mera cortesia, mas uma obrigação religiosa protegida por Zeus Xenios. Receber o estrangeiro era um dever; o hóspede, por sua vez, devia honrar o anfitrião. Romper esse pacto significava desafiar o próprio Zeus.
Os pretendentes não são mortos porque ocuparam a casa de Odisseu. Eles são executados porque transformaram a hospitalidade em parasitismo. Consumiram os bens do rei, conspiraram para matar Telêmaco, tentaram usurpar o trono e desonraram Penélope. O problema nunca foi a presença deles na casa, mas a violação deliberada da ordem moral que sustentava a sociedade grega.
Entretanto, é justamente aqui que surgem as críticas mais contundentes. Muitos consideram que Nolan interpreta esse princípio por meio de categorias psicológicas e morais contemporâneas, em vez de reconstruir a mentalidade de um grego do século VIII a.C. Como acontece em diversas adaptações modernas, os personagens parecem pensar mais como pessoas do século XXI do que como heróis do mundo homérico.
Homero continua dialogando profundamente com o homem contemporâneo? Sem dúvida. Seus temas são universais. A questão é outra: uma adaptação pode atualizar esses temas sem romper a coerência interna do universo que pretende representar?
No fim, minhas principais reservas permanecem. Nolan enfraquece a percepção da passagem do tempo, reduz a sensação da longa peregrinação de Odisseu e, em alguns momentos, diminui a escala épica que tornou o poema imortal. Ainda assim, realizou uma obra cinematográfica extraordinária. Talvez não seja a adaptação definitiva de Homero, mas certamente é um filme que merece ser visto, discutido e revisitado, exatamente como acontece com os grandes clássicos.

