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A Gazeta do Amapá > Blog > Colunista > Araciara Macedo > A última encomenda de crochê da minha vida
Araciara Macedo

A última encomenda de crochê da minha vida

Araciara Macedo
Ultima atualização: 9 de agosto de 2026 às 10:32
Por Araciara Macedo 10 horas atrás
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Sempre tive um medo meio sem fundamento das religiões de matriz africana. Nunca soube explicar direito de onde ele veio, mas tenho uma forte suspeita: a culpa era da vizinha. Ou melhor, do terreiro ao lado da minha casa.
Eu era criança e, bastava anoitecer, começava o espetáculo: o cheiro do defumador invadia o quintal, os tambores faziam a janela vibrar, os cânticos ecoavam pela rua e minha imaginação produzia um filme de terror digno de Oscar.
Enquanto minha mãe colocava a melhor roupa para ir às reuniões, eu me enfiava embaixo da cama. Na minha cabeça, qualquer sombra era uma entidade fazendo reconhecimento de área. E minha mãe, em vez de colaborar com a minha sobrevivência, ainda insistia: “Menina, deixa de bobagem! Vamos comigo!”. Nem morta. Aliás, era exatamente isso que eu achava que ia acontecer.
Os anos passaram e, já perto dos vinte, resolvi acompanhar minha mãe até a casa de uma comadre, Dona Antônia, que tinha um terreiro. Era de dia, não havia tambores, defumador nem qualquer sinal do apocalipse que eu havia imaginado na infância. Pensei que, no máximo, tomaria café e comeria um pedaço de bolo.
Foi aí que Dona Antônia e minha mãe começaram a falar sobre a festa da Cabocla Mariana. Era comida, decoração, flores, velas, enfeites… Tudo praticamente resolvido, menos uma coisa: faltava uma echarpe de crochê vermelha.
Dona Antônia comentou que não encontrava ninguém para fazer uma bonita. Foi quando minha mãe, provavelmente tomada por uma súbita vontade de me ver trabalhando, disparou: “Araciara faz!”. Eu olhei para ela com a expressão de quem acabara de descobrir uma traição familiar.
Antes que eu pudesse negar até meu próprio nome, ela completou: “Ela faz um crochê lindo!”. Resultado: saí de lá abraçada a vários novelos de linha vermelha e com uma missão espiritual que eu jamais havia solicitado.
Faltavam dois meses para a festa. Tempo de sobra. Guardei as linhas numa gaveta, fechei a gaveta e, junto com ela, tranquei na memória a existência da echarpe, da Cabocla Mariana e, praticamente, da minha própria promessa.
Até que, três dias antes da festa, fui visitar minha mãe. Ela estava ao telefone e, assim que me viu, abriu aquele sorriso típico de mãe que acaba de encontrar uma solução para um problema que você ainda nem sabe que tem. Passou o telefone para mim.
Do outro lado da linha Dona Antônia perguntou se a echarpe estava pronta. Naquele instante, minha alma saiu do corpo, deu uma volta pela sala e voltou. Eu havia esquecido completamente. Mas respondi com a segurança de quem domina a arte de mentir sob pressão: “Está praticamente pronta”. A única coisa praticamente pronta era minha desgraça.
Passei os três dias seguintes fazendo crochê como uma condenada. Crochê de manhã, à tarde, à noite, de madrugada, tomando café, vendo televisão e provavelmente até dormindo.
Se alguém tivesse me perguntado meu nome naquele período, talvez eu respondesse: “Roseta, ponto alto, correntinha”. Parecia que havia uma gerente invisível controlando minha produtividade. Quando eu parava cinco minutos, vinha aquela culpa inexplicável.
Até hoje não sei se era consciência pesada ou terceirização espiritual. O fato é que a echarpe ficou pronta. E ficou linda. Vermelha, cheia de rosetas, caprichada, praticamente uma obra de arte. Às seis da tarde, fui entregá-la a Dona Antônia. Ela abriu a porta, sorriu satisfeita e colocou a echarpe nos ombros. Foi então que aconteceu: na minha frente, sem aviso prévio, ela incorporou a Cabocla Mariana.
Eu congelei. Se alguém tivesse colocado um copo d’água na minha cabeça, eu virava estátua de praça. A Cabocla olhou para mim e comentou que eu não havia dormido nem descansado nos últimos dias. Minha vontade era responder: “Descansar? Eu achei que a senhora estivesse auditando meu crochê!”. Mas fiquei quieta.
Ela disse que sua presença havia me acompanhado enquanto eu fazia a echarpe. Pronto. Naquele momento, meu sistema nervoso pediu exoneração. Em seguida, ela sorriu e me mandou participar do festejo. E eu fui.
Dancei, comi, ri, conversei e descobri uma comida maravilhosa e pessoas extremamente acolhedoras. Os tambores que um dia pareciam anunciar o fim do mundo eram apenas música. O defumador deixou de parecer fumaça de filme de terror. Quando percebi, o dia estava amanhecendo.
Voltei para casa sem medo e, principalmente, sem aquela imagem assustadora que eu havia criado na cabeça durante a infância. Não virei frequentadora do terreiro, porque cada pessoa segue sua fé e seu caminho, mas aprendi que muitas vezes o medo nasce muito mais da nossa imaginação e dos nossos preconceitos do que daquilo que realmente conhecemos.
Também aprendi uma lição definitiva: nunca mais aceitei encomenda de crochê. Vai que o cliente resolve acompanhar pessoalmente o andamento do serviço? Hoje sou jornalista. Escrevo matérias, crônicas e reportagens. É muito mais seguro. Até onde sei, nenhuma fonte jamais incorporou para perguntar por que ainda não entreguei um texto. E, sinceramente, espero continuar assim.

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