Graça, misericórdia e paz da parte de Deus, nosso Pai, e de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Amém.
Queridos irmãos e irmãs em Cristo, as palavras do Senhor Jesus ecoam através dos séculos com um convite que atravessa todas as barreiras do tempo: “(28) Venham a mim, todos vocês que estão cansados de carregar as suas pesadas cargas, e eu lhes darei descanso. (29) Sejam meus seguidores e aprendam comigo porque sou bondoso e tenho um coração humilde; e vocês encontrarão descanso. (30) Os deveres que eu exijo de vocês são fáceis, e a carga que eu ponho sobre vocês é leve” (Mateus 11.28-30 – NTLH).
Vivemos em uma era que promete descanso em cada esquina, mas que produz exaustão em proporções nunca vistas ou pelo menos registradas na sociedade. Há quem pense que descansar é tirar férias, comprar uma casa no campo ou desligar o celular por alguns dias. Outros imaginam que a paz virá quando resolverem todos os seus problemas financeiros ou profissionais. Entretanto, basta olhar com sinceridade para o próprio coração para perceber que nenhuma dessas coisas consegue oferecer o descanso que a alma realmente necessita. Podemos descansar o corpo, mas a consciência continua pesada. Podemos aliviar a mente, mas o pecado continua acusando. Podemos fugir das preocupações, mas não conseguimos fugir de nós mesmos.
É justamente essa realidade que une os quatro textos bíblicos deste domingo. O Salmo 145 nos apresenta um Deus que é Rei. Não um rei distante ou tirano, mas um Rei digno de todo louvor, cheio de misericórdia, bondade e fidelidade. O profeta Zacarias 9.9-12 anuncia que esse Rei viria ao seu povo. Não montado em um cavalo de guerra, mas humilde, montado em um jumentinho. O apóstolo Paulo, em Romanos 7.14-25, descreve aquilo que todos nós experimentamos: mesmo pertencendo a Cristo, carregamos uma velha natureza pecadora que insiste em lutar contra a vontade de Deus. Finalmente, Jesus declara em Mateus 11.25-30: “Venham a mim, todos vocês que estão cansados de carregar as suas pesadas cargas, e eu lhes darei descanso.”
Percebam como os quatro textos caminham juntos: O Rei prometido vem. O Rei conquista nossa libertação. O Rei permanece conosco durante a luta. E o Rei nos conduz ao descanso eterno. Esse é o centro da mensagem de hoje.
A grande verdade que precisa ser compreendida é esta: Não somos nós que subimos até Deus. É Deus quem desce até nós. Não somos nós que conquistamos a liberdade. Cristo conquista essa liberdade por nós. Não somos nós que vencemos o pecado com nossas próprias forças. Cristo luta em nós e por nós. E não encontramos descanso em nossos méritos. Encontramos descanso somente na graça de Deus. Por isso podemos meditar e louvar a Deus dia e noite, antecipando o que nos diz Apocalipse 7.15: ‘É por isso que essas pessoas estão de pé diante do trono de Deus e o servem de dia e de noite no seu templo. E aquele que está sentado no trono as protegerá com a sua presença.’ Por isso meditaremos hoje sobre este tema: Nosso Deus e Rei vem ao encontro do seu povo para libertá-lo da escravidão do pecado; sustenta-o na luta diária contra a velha natureza e concede, em sua graça, o verdadeiro descanso.
I – Vejamos que o nosso Deus e Rei vem ao encontro do seu povo – O Salmo 145 começa com palavras que brotam de um coração cheio de gratidão: “Ó Senhor, meu Deus e meu Rei, eu anunciarei a tua grandeza; eu te louvarei para sempre” (Sl 145.1 – NTLH). Observem como Davi chama Deus de “Meu Deus” e “Meu Rei”. A pequena palavra “meu” revela um relacionamento pessoal. O Deus eterno decidiu aproximar-se do ser humano. Enquanto os reis deste mundo exigem que seus súditos se aproximem deles, o Deus verdadeiro faz exatamente o contrário. Ele vem ao encontro do seu povo. Zacarias anuncia: “Alegre-se muito, povo de Sião! Grite de alegria, povo de Jerusalém! Pois o seu rei está chegando. Ele é justo e vitorioso e vem montado num jumento” (Zc 9.9 – NTLH).
Que contraste extraordinário! Enquanto os reis das nações entravam montados em cavalos de guerra, o Rei prometido entra humilde, manso, sem aparência de conquistador. Sua guerra não seria contra Roma, mas contra o pecado, a morte e Satanás. Seu trono seria uma cruz. Sua coroa seria de espinhos. Por isso Zacarias continua: “Por causa do sangue da aliança que fiz com vocês, eu libertarei os prisioneiros” (Zc 9.11 – NTLH). A humanidade inteira estava presa, escrava, acorrentada. Não por correntes de ferro, mas pelo pecado. Jesus diria: “Quem peca é escravo do pecado” (Jo 8.34 – NTLH). Talvez muitos rejeitem essa afirmação, mas basta observar nossa própria vida. Quantas vezes prometemos abandonar determinado pecado e voltamos a praticá-lo? O pecado não é apenas um erro; é uma escravidão. Por isso Cristo veio. Não veio apenas ensinar ou dar exemplo. Veio para libertar. Sua cruz não foi um acidente; foi o plano eterno de Deus. O sangue derramado na cruz é o sangue que perdoa e reconcilia.
O salmista proclama: “O Senhor é bondoso e misericordioso; é paciente e muito amoroso” (Sl 145.8 – NTLH). Davi não começa falando do ser humano, mas do caráter de Deus. Nossa esperança nunca começa em nós, mas em Deus. Como confessamos no Catecismo Menor: “Creio que por minha própria razão ou força não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem vir a ele; mas o Espírito Santo me chamou pelo Evangelho.” O salmista continua: “O Senhor ajuda os que estão em dificuldade e levanta os que caem” (Sl 145.14 – NTLH). O Senhor não abandona os seus quando tropeçam; Ele os levanta.
Gostamos de pensar que conseguimos conduzir nossa vida sozinhos, vencer nossas tentações com nossa própria força. Entretanto, a Palavra nos mostra o caminho da dependência. Essa dependência se manifesta quando abrimos as Escrituras, oramos, participamos do culto e recebemos os Sacramentos. Não fazemos isso para conquistar o amor divino, mas porque já fomos alcançados por esse amor. Contudo, logo percebemos uma realidade dolorosa: embora desejemos viver assim, algo dentro de nós resiste. Existe uma batalha no coração do cristão. É para essa luta que Paulo dirige nosso olhar em Romanos 7.
II – A luta diária entre a nova vida e a velha natureza – O apóstolo Paulo escreve: “Não entendo o que faço, pois não faço o que gostaria de fazer, mas faço justamente aquilo que odeio” (Rm 7.15 – NTLH). Paulo não está descrevendo o incrédulo, mas a experiência do cristão que já foi alcançado pela graça, mas que ainda carrega a velha natureza. O cristão é simultaneamente justo e pecador — simul iustus et peccator, como ensina a teologia luterana. Justo porque declarado justo por Cristo. Pecador porque ainda carrega a carne corrompida. Paulo continua: “Porque o que eu faço não é o bem que eu quero fazer; o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo” (Rm 7.19 – NTLH). Existe em nós um desejo sincero de agradar a Deus, mas também uma inclinação persistente para o pecado. Isso gera conflito interior, frustração e cansaço espiritual. Paulo conduz ao reconhecimento da incapacidade humana.
A lei revela a vontade perfeita de Deus, mas também revela nossa incapacidade. Ela funciona como um espelho: mostra quem somos de fato. O Evangelho, por sua vez, não exige — ele dá. Não acusa — ele perdoa. Se ficarmos apenas com a Lei, cairemos no desespero. Se ignorarmos a Lei, cairemos na ilusão. Mas quando Lei e Evangelho são corretamente pregados, o cristão aprende a olhar para si mesmo com humildade e para Cristo com fé. Paulo confessa: “Desgraçado homem que sou! Quem me livrará deste corpo que me leva para a morte?” (Rm 7.24 – NTLH). A resposta é Cristo. Paulo imediatamente responde: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor!” (Rm 7.25 – NTLH).
O velho homem não luta contra si mesmo; ele apenas se entrega ao pecado. Mas o novo homem, criado pela fé em Cristo, luta, resiste, cai, se levanta, se arrepende e volta à graça, pois o Espírito Santo sempre nos leva a buscar o Salvador. E aqui se conecta perfeitamente ao Evangelho de Mateus 11.
III – O Evangelho fala que o descanso que não vem do esforço humano, mas da graça de Cristo – Jesus diz: “Venham a mim, todos vocês que estão cansados de carregar as suas pesadas cargas, e eu lhes darei descanso” (Mt 11.28 – NTLH). Observe o convite. Ele não diz: “Consertem-se primeiro.” Ele não diz: Tornem-se fortes.” Ele diz: Venham a mim. O descanso cristão não é resultado de desempenho espiritual, mas de união com Cristo. Ele continua: “Ponham sobre mim as suas cargas e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso” (Mt 11.29 – NTLH). Aqui está o contraste entre dois tipos de carga: A carga do pecado, que é pesada porque exige perfeição impossível e nunca oferece perdão; e a carga de Cristo, que é leve porque Ele mesmo a carrega conosco e por nós. Isso não significa que a vida cristã seja sem lutas. Significa que, em Cristo, não estamos mais sozinhos nelas. O Rei que vem montado em humildade é o mesmo que venceu na cruz. O sangue da aliança que nos liberta também nos sustenta diariamente. Muitos cristãos vivem cansados espiritualmente porque tentam lutar sozinhos. Tentam vencer o pecado apenas com força de vontade. Tentam manter a fé apenas com disciplina humana. Tentam viver a vida cristã como se Deus tivesse feito sua parte e agora tudo dependesse deles. É preciso ouvir: “Venham a mim.” A vida cristã não é autonomia religiosa, mas dependência diária de Cristo. Nossa segurança não está dentro de nós, mas fora de nós — na cruz, no túmulo vazio, na Palavra e nos Sacramentos. Enquanto aqui estamos, ainda lutamos, ainda caímos, ainda sofremos. E por isso Cristo continua dizendo: “Venham a mim.” Não uma vez apenas, mas diariamente.
IV – Isso pelo fato que a vida cristã é sustentada pela Palavra e pelo Espírito que revelam Cristo, o nosso descanso – Mas, como isso se torna realidade concreta na nossa vida diária? A resposta das Escrituras é simples e profunda: pela Palavra de Deus e pela ação do Espírito Santo.
O salmista diz: “O Senhor é fiel em tudo o que promete e bondoso em tudo o que faz” (Sl 145.13 – NTLH). Não é a nossa fidelidade que sustenta a fé, mas a fidelidade de Deus. A vida cristã não pode ser vivida longe da Palavra. Sem a Palavra, o cristão perde o norte, a fé enfraquece e a luta contra o pecado se torna apenas moralismo ou desespero. Mas com a Palavra, o Espírito Santo age: consola, corrige, fortalece, cria e sustenta a fé. A vida cristã não é sustentada apenas no culto de domingo; ela é alimentada diariamente. Por isso a Escritura nos chama a meditar na Palavra, não apenas ouvir, mas viver; não apenas receber informação, mas ser transformado. Tiago diz: “Não se enganem apenas ouvindo a mensagem; ponham-na em prática” (Tg 1.22 – NTLH). Meditar na Palavra significa deixar que ela molde pensamentos, decisões, palavras e atitudes. Significa olhar para o dia a dia à luz do Evangelho. Significa permitir que Cristo governe não apenas o culto, mas também a rotina. O cristão que vive na dependência diária de Cristo, alimentado pela Palavra, desenvolve uma vida de oração constante. Cabe-nos reconhecer que o mesmo Cristo que nos libertou nos chama a anunciar essa liberdade. Não como obrigação pesada, mas como fruto do descanso que já recebemos.
V. Com isso podemos concluir que – Pela obra de Cristo na cruz, Ele continua dizendo: “Venham a mim, todos vocês que estão cansados…” (Mt 11.28 – NTLH). Venham — não porque são fortes, mas porque são fracos. Venham — porque Ele é o Rei. Venham — porque Ele já venceu. Venham — Nele há perdão, vida e descanso. E esse descanso começa agora, pela fé, e será consumado na eternidade, quando finalmente descansaremos na presença daquele que é: “meu Deus e meu Rei” (Sl 145.1). Amém.
Oramos: “O Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti; o Senhor levante sobre ti o seu rosto e te dê paz. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.”
NOSSO DEUS E REI VEM AO ENCONTRO DO SEU POVO PARA LIBERTÁ-LO DA ESCRAVIDÃO DO PECADO; SUSTENTA-O NA LUTA DIÁRIA CONTRA A VELHA NATUREZA E CONCEDE, EM SUA GRAÇA, O VERDADEIRO DESCANSO.
Pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil em Macapá – Congregação
Cristo Para Todos; também atua como Missionário em Angola e Moçambique

