Deixa eu te contar uma história.
Ela tem mais de dois mil anos e foi contada pela primeira vez numa época em que os gregos ainda acreditavam que os deuses habitavam as montanhas e que o destino dos homens era tecido por mãos que nenhum mortal conseguia ver. Mas não se deixa enganar pela idade. Essa história poderia ter sido escrita ontem. Poderia estar sendo escrita agora.
Havia um ser chamado Prometeu. Ele era um titã, uma das criaturas antigas que existiram antes dos próprios deuses do Olimpo. Seu nome, em grego, significa “o que pensa antes”. “O previdente”. “O que enxerga o que os outros ainda não viram”. E ele enxergava, de fato. Tinha uma inteligência tão afiada, uma visão tão longa, que os próprios deuses o respeitavam e temiam ao mesmo tempo.
Mas o que Prometeu sentia quando olhava para os seres humanos não era respeito nem temor. Era uma coisa mais íntima e mais dolorosa do que isso. Era compaixão.
Ele via criaturas que tremiam de frio nas cavernas. Que comiam carne crua e adoeciam. Que morriam de feridas que poderiam ser tratadas, de invernos que poderiam ser suportados, de escuridões que poderiam ser iluminadas. Via seres com um potencial imenso, presos numa existência miserável, como se houvesse dentro de cada um deles algo grandioso esperando por uma chave que nunca chegava. Prometeu sabia onde estava essa chave.
No Olimpo, os deuses guardavam o fogo. Não era apenas calor e luz, era tudo o que o calor e a luz tornam possível. Era a diferença entre o animal e o civilizado, entre o barro bruto e o tijolo, entre o minério e a ferramenta, entre a erva e o remédio. Era a possibilidade de transformar o mundo em vez de apenas sobreviver nele. E Zeus, o senhor do Olimpo, o retinha deliberadamente. Havia uma ordem entre o divino e o humano, uma fronteira que separava os dois mundos, e o fogo estava do lado de cima dessa fronteira. Por decisão. Por desígnio. Porque certas coisas, na cosmologia grega, pertenciam aos deuses e não aos homens.
Prometeu olhou para essa fronteira. Olhou para os homens sofrendo. Tornou a olhar para a fronteira. E a cruzou. Escondeu uma brasa viva dentro de um talo de funcho oco, uma planta comum, discreta, que ninguém olharia duas vezes e desceu do Olimpo com o fogo escondido ali dentro. Chegou ao mundo dos homens. Entregou a chama.
O que aconteceu depois foi tudo o que ele imaginara. Os homens aprenderam a cozinhar, a aquecer suas casas, a fundir metais, a navegar com maior segurança, a tratar feridas, a construir cidades. Floresceram. A civilização humana, em seu sentido mais fundamental, nasceu daquele gesto.
E Prometeu observou tudo isso. Viu os homens florescendo com o que ele lhes dera. E imagino, porque a história não diz, mas eu imagino que naquele momento ele sentiu algo que só quem agiu por amor e viu o amor frutificar consegue sentir. Uma completude. Uma certeza de que valeu a pena. O que ele não viu, ou não quis ver, foi a tirania, as armas, as guerras, a destruição do homem pelo homem.
Zeus não esperou muito. A transgressão era grave demais, a fronteira cruzada séria demais, para que passasse sem resposta. Prometeu foi capturado e acorrentado a uma rocha no fim do mundo, no Cáucaso, um lugar tão remoto que nenhum socorro poderia chegar. E Zeus mandou uma águia. Todos os dias, sem exceção, ela descia e devorava o fígado de Prometeu. E como ele era imortal, o fígado se regenerava durante a noite. Para que a águia voltasse no dia seguinte. E no seguinte. E no seguinte. Para sempre.
Imóvel. Acorrentado. Consumido todos os dias pelo resultado de sua própria escolha.
Mas agora preciso que você fique com uma pergunta que essa história deixa no ar, uma pergunta pequena, quase discreta, como o talo de funcho. Antes de descer ao mundo com o fogo escondido, Prometeu foi até os homens e perguntou se eles o queriam? Se estavam dispostos a assumir os riscos que vinham junto com a dádiva, os incêndios, as guerras com armas de ferro, o poder de destruição que o domínio do fogo carrega dentro de si, junto com tudo o que tem de luminoso?
Não. Ele foi. Sozinho, decidiu o que era melhor para a humanidade. Sem perguntar. Sem consultar. Porque ele enxergava o que os homens não enxergavam, e essa visão, na sua cabeça, era suficiente para agir por eles sem precisar ouvi-los.
É aqui que a história deixa de ser sobre um titã e começa a ser sobre algo que reconhecemos. Porque esse movimento, o do líder que enxerga mais longe, que ama genuinamente, que age em nome dos outros sem consultá-los, que cruza fronteiras porque sua causa é grande demais para ser limitada pelas regras que valem para os demais. Esse movimento não ficou na mitologia grega. Ele está em todo lugar onde há poder e alguém que o exerce.
Não estou falando de hipocrisia. Estou falando de algo mais sutil e mais difícil de nomear. Estou falando do momento em que um governante, com uma causa real e um amor genuíno pelo que representa, começa a confundir duas coisas que precisariam permanecer separadas, qual seja, a causa que serve e a pessoa que serve à causa. Quando o que era “estou a serviço de algo maior do que eu” se transforma, devagar e quase sem que ninguém perceba, em “eu sou esse algo maior”. Quando a fronteira entre o líder e o projeto some.
A partir desse momento, qualquer crítica à política vira ataque à pessoa. Qualquer ataque à pessoa vira traição ao projeto. E as regras que existem para proteger a todos. As fronteiras que Prometeu cruzou com tão boa consciência passam a ser vistas como obstáculos à missão, não como os limites que definem o que a missão pode e não pode fazer.
O suplício de Prometeu não é apenas punição. É imagem. É a imagem do que acontece com quem, ao colocar-se acima das regras em nome de uma causa, perde a mobilidade. Deixa de conseguir se mover, se adaptar, corrigir o rumo. Está preso à rocha de suas próprias certezas, sendo consumido todos os dias por elas, sem conseguir avançar, enquanto o mundo que ele transformou segue em frente sem ele.
Os homens ficaram com o fogo. Prometeu ficou com a rocha.
O fogo não desceu do Olimpo em chamas abertas, com fanfarra e proclamação. Desceu escondido, disfarçado, dentro de algo que parecia inócuo. E é assim que quase tudo que muda o mundo chega e é assim que quase tudo que destrói os que governam começa. Não com um gesto enorme e declarado. Com algo pequeno que parece razoável. Uma exceção que parece justificada. Uma fronteira que parece menos importante do que a causa que está do outro lado dela.
Relembro essa história a você, muito embora tenha sido contada há mais de dois milênios, porque ela continua atual e cheia de significados, pois eu como um jovem politico, devo me manter vacinado contra essa vontade de sentir-se superior em ideias e ações. O Nazismo, o Fascismo e tantos outros governos tiranos, com outros nomes, outras bandeiras, nasceram dessa visão. O grandioso que se torna prisioneiro de si mesmo. A causa que começa servindo às pessoas e termina servindo a si mesma.
Será esse o destino de todos os que governam?
O DESTINO DOS QUE GOVERNAM

