Os autores bíblicos acreditavam habitar um cosmos vivo, povoado e multidimensional.
Daniel relata a visão de um “vigilante, um santo que descia do céu” para decretar juízo sobre o orgulho de Nabucodonosor. O termo aramaico “ir”, revela uma entidade consciente que observa, anuncia e executa decisões vindas do conselho celestial.
Já em Ezequiel 9 surge um homem vestido de linho, com um estojo de escriba à cintura, encarregado de registrar os acontecimentos da cidade e marcar aqueles que gemiam pela corrupção de Jerusalém. A imagem é de uma figura celestial coletando, através de um dispositivo, informações em tempo real, separando moralmente os homens em meio ao caos social.
O escriba celestial atua como um registrador moral da humanidade.
Em Ezequiel 1, o profeta vê rodas dentro de rodas, cheias de olhos ao redor, movendo-se em perfeita sincronia sem girar sobre si mesmas. Há fogo, relâmpagos, brilho semelhante ao metal reluzente e seres viventes com múltiplas faces: homem, leão, boi e águia.
Ezequiel demonstra extrema dificuldade para traduzir a visão em linguagem humana. O capítulo inteiro é dominado pelas expressões:
“semelhante a…”
“como aparência de…”
“algo parecido com…”
É o colapso da linguagem diante de uma realidade que escapa às categorias normais da experiência humana.
Os querubins não aparecem na Bíblia como anjinhos ornamentais renascentistas. Eles são descritos como seres ligados ao trono divino, à glória e ao movimento da presença manifesta de Deus. Em Salmos 18:10, Davi escreve:
“Montou num querubim e voou; sim, voou velozmente sobre as asas do vento.”
Deus é retratado poeticamente como um Rei-Guerreiro atravessando os céus sobre sua carruagem viva.
O imaginário continua em expansão em textos como Salmos 68:17:
“Os carros de Deus são vinte mil, milhares de milhares.”
O universo bíblico pulsa com hostes, exércitos, movimentos celestiais e realidades invisíveis.
Habacuque descreve Deus vindo de Temã e do monte Parã com relâmpagos, Sua glória cobrindo os céus, cavalos e carros de vitória, a pestilência indo diante dEle e fogo saindo de Seus pés.
Na mentalidade bíblica, a manifestação divina invade o mundo físico acompanhada de perturbação cósmica.
O arrebatamento de Elias amplia o tema:
“Eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho.” 2 Reis 2:11
A descrição reúne: vento, luminosidade e transição entre dimensões.
Apocalipse retoma imagens semelhantes: metal reluzente, mares cristalinos, seres extraordinários, trovões, vozes, lâmpadas ardentes,
uma cidade descendo do céu, pedras translúcidas e ouro puro “semelhante a vidro transparente”.
A Nova Jerusalém é uma cidade cúbica colossal onde muitos elementos da descrição lembram linguagem de alta tecnologia: luminosidade autônoma, materiais translúcidos, energia constante, arquitetura perfeita, mobilidade entre dimensões e comunicação instantânea entre céu e terra.
Os profetas descreveram uma realidade infinitamente superior à experiência humana comum.
O universo bíblico é muito maior, mais misterioso e mais povoado do que o racionalismo moderno gostaria de admitir. Porém, ele também é moral. Existe discernimento, verdade, engano, luz e trevas.
O erro moderno não é acreditar no invisível. É imaginar que o invisível seja neutro.

