Graça, misericórdia e paz da parte de Deus, nosso Pai, e de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Amém.
Queridos irmãos e irmãs em Cristo. Diz o salmista Salomão no Salmo 127: “(1) Se o Senhor Deus não edificar a casa, não adianta nada trabalhar para construí-la. Se o Senhor não proteger a cidade, não adianta nada os guardas ficarem vigiando. (2) Não adianta trabalhar demais para ganhar o pão, levantando cedo e deitando tarde, pois é Deus quem dá o sustento aos que ele ama, mesmo quando estão dormindo. (Sl 127.1-2 – NTLH)” E o Salmista Davi no Salmo 37: “(25) Fui moço e agora sou velho, mas nunca vi um homem bom abandonado por Deus e nunca vi os seus filhos mendigando comida. (26) Ele sempre é generoso em dar e emprestar, e os seus filhos são uma bênção. (Sl 37.25-26 – NTLH).” A bondade de Deus não tem fim, ele cuida de todos, mas somente aqueles que esperam nele reconhecem esta bondade que se renova todos os dias.
Vivemos em um mundo marcado pela escassez. Há falta de alimento para muitos. Há falta de paz nos lares. Falta segurança, esperança, estabilidade e sentido para a vida. Mesmo aqueles que possuem muito materialmente continuam experimentando uma profunda fome interior. Essa fome não é apenas física. É a fome da alma. O ser humano tenta saciá-la com dinheiro, sucesso, prazer, poder, reconhecimento, religião como uma espécie de clube ou por boas obras. Porém, tudo isso dura pouco. Logo a fome retorna. Os textos deste domingo (Salmo 136.1—26 – Isaías 55.1-5 – Romanos 9.1-13 – Mateus 14.13-21) falam justamente sobre um Deus que conhece nossa fome e vem ao nosso encontro para alimentá-la. O Salmo 136 repete vinte e seis vezes uma mesma verdade: “Porque o seu amor dura para sempre.” Essa repetição não é um recurso poético vazio. É uma catequese. Deus quer gravar essa verdade no coração do seu povo.
Tudo o que Deus faz nasce do seu amor eterno. Ele criou. Ele preserva. Ele salva. Ele alimenta. Ele permanece fiel. E tudo isso culmina em Jesus Cristo. Por isso, o tema desta mensagem é: Cristo nos alimenta porque o seu amor dura para sempre.
- Este alimentar de Deus já era visto em abundância nas promessas do Antigo Testamento onde o eterno de Deus nos convida gratuitamente por meio do profeta Isaías e – faz um dos convites mais belos de toda a Escritura. “Venham todos vocês que estão com sede… venham, comprem e comam… sem dinheiro e sem pagar. (Isaías 55 – NTLH).” Que convite estranho! Como alguém compra sem dinheiro? Porque Deus não está vendendo. Ele está oferecendo. Aqui encontramos o Evangelho, a boa notícia – Deus cuida, ampara e sustente os seus filhos. Precisamos entender que a salvação nunca foi um negócio entre Deus e o homem. Nunca foi uma troca. Nunca foi um pagamento. Nunca foi uma recompensa. Ela sempre foi um presente. A Lei, porém, revela como naturalmente pensamos. Achamos que precisamos merecer. Precisamos provar nosso valor. Precisamos compensar nossos pecados. Tentamos oferecer a Deus nossas obras. Nossa religiosidade. Nossa moral. Nossa dedicação.
Mas Isaías pergunta: “Por que gastar dinheiro naquilo que não é pão?” Em outras palavras: “Por que insistir naquilo que jamais poderá alimentar sua alma?” Quantas pessoas vivem exatamente assim! Correm atrás de riqueza. Status. Reconhecimento. Mas continuam vazias. Porque somente Deus pode alimentar aquilo que Ele mesmo criou. O Salmo 136 mostra que toda essa graça nasce de um amor que jamais acaba. Quando Israel olha para trás, vê a criação. Vê o Êxodo. Vê o cuidado no deserto. Vê a terra prometida. E depois de cada lembrança responde: “Porque o seu amor dura para sempre.” Percebam: Israel não diz: “Porque fomos obedientes.” Nem: “Porque merecemos.” Sempre a razão é a mesma: O amor eterno de Deus. Assim também conosco, nós olhamos para trás e enxergamos todas as maravilhas que Deus fez por nós e inclusive enxergamos mais que o povo de Israel, nós enxergamos Cristo que morreu em nosso favor.
Estamos aqui hoje não porque fomos melhores que os outros. Não porque nossa fé seja perfeita. Não porque tenhamos conseguido vencer todos os pecados. Mas porque Deus continua nos chamando pela graça. O Batismo foi esse convite gratuito e agora continuamos nesta Graça. A Palavra continua sendo esse convite. A Santa Ceia renova continuamente esse convite, e quem está ciente desta verdade irá participar para receber o próprio Cristo, juntamente com o pão e o vinho. Corpo e Sangue. Na verdade: Cristo continua dizendo “Venha.” “Receba.” “Coma.” “Beba.” Tudo gratuitamente. Porque o amor do Senhor dura para sempre. - Este amor de Deus revela em Cristo o quanto Deus nos amar. A situação e contexto do Evangelho é interessante, pois Jesus acabara de saber da morte de João Batista. Mateus nos leva para um lugar deserto. Com uma notícia assim, o silêncio e a reflexão sã necessárias. Humanamente, era hora de descansar. De ficar sozinho. Mas a multidão o encontra. E então Mateus registra uma das frases mais belas do Evangelho. “Jesus teve compaixão delas.” Essa palavra “compaixão” significa sentir profundamente a dor do outro. Jesus não vê apenas uma multidão. Ele vê pessoas. Famílias. Doentes. Viúvas. Pais preocupados. Crianças. Pecadores. Pessoas cansadas. Almas famintas. Os discípulos pensam de maneira prática. “Despede a multidão.” Cada um que resolva seu problema. Mas Jesus responde: “Eles não precisam ir embora.”
Essa frase resume todo o Evangelho. Nós é que deveríamos estar longe de Deus por causa do pecado. Mas Cristo diz: “Eles não precisam ir embora.” Porque Ele veio justamente buscar os que estavam perdidos. Então aparece um problema. Cinco pães. Dois peixes. Mais de cinco mil homens, além das mulheres e crianças, diz texto. Humanamente impossível. Os discípulos olham para os recursos. Jesus olha para o Pai, para onde também nós devemos olhar e nele esperar. Ele toma os pães. Dá graças. Parte. Entrega. E o impossível acontece. Todos comem. Todos ficam satisfeitos. Ainda sobram doze cestos. Esse milagre não fala apenas sobre alimentação. Ele aponta para algo muito maior. Jesus é o verdadeiro Pão da Vida. Assim como Deus sustentou Israel com o maná, agora o próprio Filho de Deus alimenta seu povo. Na cruz, Cristo entrega muito mais do que pão. Entrega seu próprio corpo. Derrama seu sangue. Ali nossa fome espiritual encontra alimento definitivo. Na Santa Ceia, esse mesmo Cristo continua alimentando sua Igreja. Não apenas simbolicamente. Mas realmente. Seu verdadeiro corpo. Seu verdadeiro sangue. Dados para remissão dos pecados. Ali recebemos perdão. Vida. Salvação. Não porque somos dignos. Sabemos disso, mas é preciso ser repetido e ouvido sempre de novo para não esquecermos deste fato.
Por isso te convido a pensar comigo nesta ilustração. Conta-se que um menino atravessava diariamente uma longa estrada para chegar à escola. Todos os dias sua mãe colocava um pedaço de pão em sua mochila. O menino nunca pensava de onde vinha aquele pão. Até que certa vez percebeu que sua mãe acordava ainda de madrugada para prepará-lo. Ela própria muitas vezes deixava de comer para garantir o alimento do filho. Naquele momento ele compreendeu que aquele pão era muito mais do que comida. Era amor. Assim acontece conosco. Às vezes olhamos para o pão da Santa Ceia, para a Palavra pregada ou para as bênçãos diárias e esquecemos que cada uma delas nasceu de um amor infinitamente maior. Custaram o sangue do Filho de Deus. Cada bênção que recebemos carrega a marca da cruz. Todo alimento espiritual nos lembra que alguém pagou um preço que jamais poderíamos pagar. - E ainda promete estar conosco até o fim dos séculos, amor imerecido – Em Romanos 9 começa com um profundo sofrimento de Paulo. Seu coração dói porque muitos israelitas rejeitaram Cristo. Como isso poderia acontecer justamente com o povo escolhido? Será que Deus falhou? Paulo responde categoricamente: Não. A Palavra de Deus jamais falhou e nem volta vazia. Porque Deus nunca fundamentou sua promessa no mérito humano. Ele sempre fundamentou sua promessa em sua própria graça.
Isaque nasceu pela promessa. Jacó foi escolhido antes mesmo de nascer. Tudo acontece pela iniciativa de Deus. É exatamente isso que também nos consola. Se dependesse da nossa fidelidade, ninguém seria salvo. Se dependesse da intensidade da nossa fé, viveríamos em permanente desespero. Se dependesse das nossas obras, estaríamos completamente perdidos. Mas nossa esperança repousa sobre outra realidade. Cristo permaneceu fiel. Ele cumpriu toda a Lei. Ele carregou toda nossa culpa. Ele venceu a morte. Ele ressuscitou. E continua reinando e nos receberá no seu reino. O amor que começou antes da criação continua hoje e continuará por toda a eternidade. O Salmo 136 lembra isso repetidamente. O amor de Deus atravessa gerações. Sobrevive aos impérios. Vence o pecado. Derrota a morte. Permanece para sempre. É por isso que nossa segurança não está em nós. Está em Cristo. Quando nossa consciência nos acusa. Quando Satanás tenta nos condenar. Quando percebemos nossa fraqueza. Quando a morte se aproxima. Podemos responder: “O amor do Senhor dura para sempre.” Não como um simples slogan. Mas porque Cristo vive.
Pastoralmente podemos então entender que – Vivemos dias de muitas inseguranças. Há famílias preocupadas com o futuro. Há pessoas lutando contra enfermidades. Outras enfrentam desemprego. Algumas carregam culpa por pecados antigos. Outras choram perdas recentes. Talvez alguns aqui estejam espiritualmente cansados. Sentem-se vazios. Sem forças para continuar. Cristo continua dizendo hoje exatamente o que disse àquela multidão. “Eles não precisam ir embora.” Permaneçam comigo. Escutem minha Palavra. Recebam meu perdão. Venham à minha mesa. Porque ainda há alimento. Ainda há graça. Ainda há misericórdia. Ainda há esperança. Nossa sociedade oferece muitos alimentos falsos. Consumo. Prazer. Ideologias. Religiões baseadas em mérito. Mas nada disso satisfaz. Somente Cristo alimenta para a vida eterna. Por isso, valorizemos os meios da graça. Por isso não negligenciemos o culto. Não abandonemos a leitura das Escrituras. Não desprezemos o Batismo. Não nos afastemos da Santa Ceia. É por esses meios simples que Cristo continua distribuindo o pão da vida ao seu povo.
Contudo isso se manifesta assim: Quando compreendemos que fomos alimentados gratuitamente por Cristo, também aprendemos a alimentar os outros. Isso acontece de muitas maneiras. Uma refeição oferecida a quem passa necessidade. Uma visita a um enfermo. Uma palavra de consolo. Um gesto de perdão. Uma oferta para a missão da Igreja. O anúncio do Evangelho. Tudo isso nasce do mesmo amor que primeiro recebemos. A multiplicação dos pães também ensina que aquilo que parece pequeno nas mãos de Cristo torna-se abundante. Talvez você pense: “Tenho pouco tempo.” “Poucos recursos.” “Pouca capacidade.” Mas os discípulos também tinham apenas cinco pães e dois peixes. Nas mãos de Cristo, o pouco se tornou suficiente. Assim também acontece conosco. Quando colocamos nossa vida nas mãos do Senhor, Ele faz muito mais do que conseguimos imaginar.
Então podemos concluir com tranquilidade que – Os quatro textos deste domingo conduzem nosso olhar para uma única verdade. O Salmo proclama: O amor do Senhor dura para sempre. Isaías anuncia: Venham receber gratuitamente. Mateus mostra: Cristo alimenta a multidão com compaixão. Romanos afirma: Deus permanece fiel às suas promessas em Cristo. Tudo converge para Jesus. Ele é o Pão da Vida. Ele é o cumprimento das promessas. Ele é a graça oferecida gratuitamente. Ele é o Deus cujo amor nunca termina. Talvez hoje você tenha chegado aqui cansado. Com medo. Com culpa. Com dúvidas. Com o coração vazio. Cristo continua dizendo: “Venha.” “Receba.” “Coma.” “Eu sou o Pão da Vida.” Na cruz, Ele entregou seu corpo para que jamais faltasse alimento à nossa alma. Na ressurreição, venceu a morte para garantir que a vida que nos concede nunca terá fim. E, ainda hoje, reúne seu povo em torno da Palavra e da Santa Ceia para continuar alimentando os seus filhos. Assim, quando deixarmos este culto e enfrentarmos novamente as alegrias e as lutas da semana, poderemos caminhar com a mesma certeza que ecoa em cada verso do Salmo 136: Cristo nos alimenta porque o seu amor dura para sempre. A Ele seja toda a honra, toda a glória e todo o louvor, agora e eternamente. Amém.
Por fim dizemos: “Ponham em prática o que vocês receberam e aprenderam de mim, tanto com as minhas palavras como com as minhas ações. E o Deus que nos dá a paz estará com vocês. (Fp 4.8 – NTLH)”. Amém!

