Amados irmãos e irmãs em Cristo Jesus! Diz Deus por meio do Apóstolo Pedro em sua primeira carta, isto é: “(19) Vocês foram libertados pelo precioso sangue de Cristo, que era como um cordeiro sem defeito nem mancha. (20) Ele foi escolhido por Deus antes da criação do mundo e foi revelado nestes últimos tempos em benefício de vocês. (21) Por meio dele vocês creem em Deus, que o ressuscitou e lhe deu glória. Assim a fé e a esperança que vocês têm estão firmadas em Deus. (1 Pe 1.19-21 – NTLH).”
Contudo, nós todos vivemos em um tempo em que o valor das pessoas costuma ser medido pelo que elas possuem, pelo que produzem ou pela influência que exercem. Se alguém deixa de ser útil, rapidamente é descartado, e isso é tão rápido quanto um piscar de olhos. Em nossos tempos as relações tornam-se frágeis. As promessas duram pouco. O amor, muitas vezes, depende das circunstâncias. Mas Deus age exatamente ao contrário. Deus dá valoriza a sua criatura e os textos deste final de semana nos apontam para esse valor extraordinário que nós temos para o nosso Deus, o Criador (Textos – Salmo 125 – Deuteronômio 7.6-9 – Romanos 8.28-39 – Mateus 13.44-52 – leia-os). Tão logo, a Palavra de Deus deste domingo nos revela algo extraordinário: Cristo entregou tudo para fazer de nós o seu povo precioso. Esse é o centro de todos os textos de hoje. No Antigo Testamento, Deus declara que Israel foi escolhido não por ser grande ou melhor que os demais povos, mas porque Deus os amou. No Evangelho, Jesus compara o Reino dos Céus a um tesouro escondido e a uma pérola de grande valor. Na Epístola, Paulo afirma que nada poderá nos separar do amor de Deus revelado em Cristo. E o Salmo mostra que Deus cerca o seu povo como os montes cercam Jerusalém. Todos esses textos apontam para uma única verdade: Nós não somos preciosos porque somos bons. Somos preciosos porque Cristo nos amou até a cruz. Essa é a mensagem que conforta o pecador arrependido e destrói toda confiança em nossos próprios méritos. Hoje veremos três grandes verdades. – Deus nos escolheu por amor. – Cristo entregou tudo para fazer de nós seu tesouro. – Quem permanece na Palavra permanece seguro no amor de Deus.
I – Por isso afirmamos por fé que Deus nos escolheu por amor, não por nossos méritos – com isso vamos olhar o que O Senhor diz em Deuteronômio: “O Senhor Deus os escolheu para que fossem somente dele, para serem o seu povo escolhido entre todos os povos que há na terra.” (Dt 7.6 – NTLH). Logo depois Deus explica por quê. “Não foi porque vocês eram mais numerosos do que os outros povos que o Senhor os amou e escolheu… Mas foi porque o Senhor os amou.” (Dt 7.7-8 – NTLH). Veja: Israel não era melhor – Não era maior – Não era mais fiel – Ao contrário: Era um povo que constantemente reclamava, murmurava, fazia ídolos e rejeitava Deus. Mesmo assim Deus permaneceu fiel. Essa é exatamente a história da humanidade. Também nós rejeitamos Deus. Desde Adão e Eva nossa natureza deseja viver longe do Senhor. Eis um fato: o pecado faz exatamente isso: faz-nos acreditar que podemos viver sem Deus. O pecado nos leva a abandonar sua Palavra. E quando a Palavra é abandonada, Deus passa a ser substituído por ideias humanas. Hoje muitos dizem: “Meu Deus é assim…” “Eu imagino Deus dessa maneira…” Então é preciso entender que ninguém conhece Deus pela imaginação. Conhecemos Deus somente onde Ele quis ser encontrado: na sua Palavra. Sem a Escritura inventamos um deus à nossa imagem. Foi exatamente isso que Israel fez inúmeras vezes. Quando abandonava a Palavra, construía bezerros de ouro. Hoje talvez não fabriquemos ídolos de metal. Mas fabricamos ídolos muito mais sofisticados: dinheiro, prazer, carreira, ego, sucesso, opinião pública, e tantos outros. Tudo aquilo que ocupa o lugar de Deus torna-se um falso deus. Por isso a Igreja jamais pode abandonar a Escritura. Uma igreja sem Palavra continua tendo música, organização, emoção… mas deixa de conhecer o verdadeiro Cristo. A Reforma Luterana insistiu justamente nisso. É por isso que hoje estamos aqui. Na Igreja Luterana é assim, goste ou não, a Palavra é suprema, ela fala e testifica de Cristo. Então nós dizemos que: Somente a Escritura (Sola Scriptura) revela quem Deus realmente é. É nela que encontramos Cristo. É nela que ouvimos o Evangelho. É nela que o Espírito Santo cria a fé.
II – Então na Palavra e só na Palavra nós encontramos quem realmente nos dá valor, o Cristo que entregou tudo para fazer de nós o seu povo precioso. Com isso chegamos ao Evangelho. Onde Jesus conta duas pequenas parábolas. O tesouro escondido. E a pérola de grande valor. Muitas vezes essas parábolas são entendidas como se o homem fosse o cristão que vende tudo para comprar Cristo. Mas essa interpretação apresenta um problema. Quem entre nós teria condições de comprar o Reino? Quem conseguiria pagar pela salvação? Ninguém. Então voltamos para a introdução desta mensagem lembrando do texto de 1 Pedro 1.19-21.
É preciso entender que as Escrituras ensinam exatamente o contrário. Isto é, somos pobres espiritualmente. Estamos mortos em nossos pecados. Não temos como adquirir a vida eterna. Por isso, conforme a compreensão bíblica e apostólica, podemos contemplar nessas parábolas o próprio Cristo. Foi Cristo quem encontrou aquilo que considerou infinitamente precioso. E esse tesouro somos nós. Mesmo perdidos. Mesmo enterrados no pecado. Mesmo rejeitando o Senhor. Mesmo fugindo dele. Cristo nos viu. E decidiu pagar o preço. Qual foi esse preço? O seu sangue e a sua vida na cruz. Ele, renunciou à glória. Diz Paulo, que: “(6) Ele tinha a natureza de Deus, mas não tentou ficar igual a Deus. (7) Pelo contrário, ele abriu mão de tudo o que era seu e tomou a natureza de servo, tornando-se assim igual aos seres humanos. E, vivendo a vida comum de um ser humano, (8) ele foi humilde e obedeceu a Deus até a morte — morte de cruz.” (Fp 2.6-8 – NTLH)”. Tudo isso para fazer de nós seu povo precioso. E é exatamente isso que Paulo resume em Romanos 8. “Aquele que não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós…” (Rm 8.32 – NTLH).
Poderíamos já exclamar: Que loucura é isso que ouvimos até agora. Nós rejeitamos Deus. Mas Deus não desistiu de nós. Nós nos afastamos. E mesmo assim Cristo veio nos buscar. Nós quebramos a aliança e mesmo assim, Cristo restaurou a comunhão. Nós merecíamos condenação, mas Cristo recebeu nossa condenação. O amor de Deus não nasceu porque nos tornamos dignos. Foi justamente quando éramos indignos que Cristo morreu. Essa é a beleza da graça. A Confissão de Augsburgo afirma que somos justificados gratuitamente por causa de Cristo, mediante a fé (Confissão de Augsburgo -Artigo IV – da Justificação). Não somos aceitos porque conseguimos mudar. Somos aceitos porque Cristo nos justificou. Depois dessa justificação o Espírito Santo começa a transformar nossa vida.
Por isso para entendermos eis uma ajuda com uma ilustração: Conta-se que um antigo restaurador de obras de arte encontrou um quadro completamente abandonado em um depósito. Estava coberto de poeira. Rasgado. Escurecido. Quase ninguém percebia qualquer valor nele. Muitos sugeriram jogá-lo fora. Mas o restaurador conhecia sua origem. Sabia quem era o autor. Então pagou um alto preço por aquela obra aparentemente sem valor. Levou-a para seu ateliê. Durante meses trabalhou cuidadosamente. Removeu a sujeira. Reconstruiu as partes danificadas. Quando terminou, revelou-se uma obra de valor incalculável. O valor não estava na aparência em que foi encontrada. O valor estava no olhar daquele que conhecia seu verdadeiro autor. Assim acontece conosco. O pecado deformou nossa vida. O mundo olha apenas nossas falhas. Mas Cristo viu aquilo que nós mesmos já não conseguíamos enxergar. Ele viu pessoas criadas à imagem de Deus. Pagou com seu próprio sangue. Restaurou-nos pela cruz. E continua restaurando-nos pela Palavra e pelos Sacramentos.
III – E pela Palavra e pelos Sacramentos Deus permanece ao lado dos que permanecem na fé. Diz o Salmo 125: “Como os montes em volta de Jerusalém, assim o Senhor Deus está em volta do seu povo, agora e sempre.” (Sl 125.2 – NTLH). Que uma imagem extraordinária. Isso não significa ausência de sofrimento. O próprio Paulo pergunta: “Será que alguma coisa pode nos separar do amor de Cristo?” (Rm 8.35 – NTLH). E responde: Tribulação? Angústia? Perseguição? Fome? Perigo? Espada? Nada disso pode nos afastar de Cristo. Ele permanece conosco. Mas o Salmo também faz um alerta. “Mas os que seguem caminhos errados, que o Senhor Deus os mande embora junto com os que praticam o mal.” (Sl 125.5 – NTLH). Aqui aparece a distinção entre Evangelho e Lei. O Evangelho consola. A Lei adverte. Deus ama. Mas Deus também julga. Quem endurece o coração. Quem rejeita deliberadamente sua Palavra. Quem despreza continuamente a graça. Quem vive sem arrependimento. Coloca-se sob o juízo divino. Não porque Deus deixou de amar. Mas porque rejeitou o único Salvador. Essa advertência vale para todos nós. A apostasia nunca começa de repente. Ela começa quando a Palavra perde espaço, quando a achamos que não precisamos ouvir tanto assim a Palavra. Quando os ouvidos começam a coçar e achamos que a mensagem não precisava ser tanto assim. Veja como acontece: Primeiro deixamos um culto. Depois outro. Depois deixamos de ler a Bíblia. Depois deixamos de orar. Pouco tempo depois já pensamos como o mundo. É exatamente por isso que a Igreja insiste na centralidade dos meios da graça. A fé não é alimentada por sentimentos. Nem por experiências. Nem por emoções. A fé nasce e permanece pela Palavra. Como escreveu Paulo: “A fé vem por ouvir a mensagem, e a mensagem vem por meio da pregação a respeito de Cristo.” (Rm 10.17 – NTLH). Quando abandonamos a Palavra, inevitavelmente abandonaremos os caminhos de Deus. Por isso Cristo continua chamando seu povo. Voltem. Ouçam. Arrependam-se. Recebam meu perdão. Vivam da minha graça.
IV – Por isso aos que estão na Palavra podem e tem certeza de que: Nada poderá separar o povo precioso do amor de Cristo – Romanos 8 é um dos capítulos mais consoladores da Bíblia. Paulo começa dizendo: “Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam.” (Rm 8.28 – NTLH). Isso não significa que tudo seja bom. O sofrimento continua sendo sofrimento. A doença continua sendo doença. A morte continua sendo inimiga. Mas Deus transforma até as dores em instrumentos da sua graça. Depois Paulo faz perguntas impressionantes. Quem acusará os escolhidos? Quem condenará? Quem nos separará do amor de Cristo? A resposta é sempre a mesma. Ninguém. Porque Cristo já morreu. Cristo ressuscitou. Cristo reina. Cristo intercede por nós. E então Paulo encerra: “Pois estou certo de que nem a morte, nem a vida… nem qualquer outra coisa que existe poderá nos separar do amor de Deus, que é nosso por meio de Cristo Jesus, o nosso Senhor.” (Rm 8.38-39 – NTLH). Em Jesus temos segurança! Nossa salvação não depende da força da nossa mão. Depende da fidelidade de Cristo. Quando tropeçamos, Ele continua sendo fiel. Quando nos arrependemos, Ele continua nos recebendo. Quando voltamos, Ele continua nos abraçando. Como o pai do filho pródigo. Porque fomos comprados por um preço infinito. Então o que podemos aprender hoje? Primeiro – Nunca pense que você é amado por Deus porque merece. Você é amado porque Cristo entregou tudo por você. Segundo – Jamais despreze a Palavra de Deus. É nela que Cristo fala. É nela que conhecemos quem Deus realmente é. É nela que recebemos perdão. É nela que nossa fé é preservada. Terceiro – Mesmo quando você percebe o quanto falhou, não fuja de Cristo. Corra para Ele. O mesmo Cristo que morreu por você continua recebendo pecadores arrependidos. Quarto – Permaneça onde Cristo prometeu estar: na Palavra pregada, no Batismo, na Santa Ceia. Ali Ele continua restaurando seu povo precioso.
Então contudo que já ouvimos podemos concluir que – Há uma pergunta que precisa permanecer em nosso coração. Quanto valemos para Cristo? A resposta não está em nossas obras. Nem em nosso passado. Nem em nossa fidelidade. A resposta está no Calvário. Ali vemos quanto valemos para Deus. Cristo entregou tudo. Não porque fôssemos bons. Mas porque decidiu fazer de nós o seu povo precioso. Mesmo quando o rejeitamos, Ele veio nos buscar. Mesmo quando caímos, continua chamando ao arrependimento. Mesmo quando o mundo nos despreza, Cristo nos chama DE SEU POVO.
E enquanto permanecermos ouvindo sua Palavra, vivendo da sua graça e recebendo seus Sacramentos, podemos descansar na promessa do Salmo: “Como os montes em volta de Jerusalém, assim o Senhor Deus está em volta do seu povo, agora e sempre.” (Sl 125.2 – NTLH). Por isso, não procure seu valor em si mesmo. Não procure segurança no mundo. Não abandone a Palavra. Olhe para Cristo. Foi Ele quem entregou tudo para fazer de você o seu povo precioso. E por isso podemos repetir com absoluta certeza as palavras do apóstolo Paulo: “Nada poderá nos separar do amor de Deus, que é nosso por meio de Cristo Jesus, o nosso Senhor. (Rm 8.39 – NTLH)”. Amém.

