Queridos irmãos e irmãs, graça, misericórdia e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo.
Existe uma lei na criação de Deus que ninguém consegue mudar: toda colheita depende daquilo que foi semeado. Ninguém planta milho esperando colher arroz. Ninguém deixa a terra abandonada durante meses e depois se surpreende porque ela não produziu frutos. A natureza nos ensina que toda colheita é consequência de uma semeadura. No entanto, quando olhamos para a vida espiritual, muitas vezes pensamos diferente. Queremos colher paz, mas nem sempre buscamos a Palavra que concede essa paz. Queremos uma fé firme, mas frequentemente deixamos a Bíblia fechada. Desejamos famílias fortalecidas, filhos permanecendo na fé, uma igreja cheia de vida e uma sociedade mais justa, mas esquecemos que não existe colheita espiritual sem a semeadura constante da Palavra de Deus. Os quatro textos (Salmo 65 – Isaías 55.10-13 – Romanos 8.12-17 – Mateus 13.1-9, 18-23) proclamam uma única verdade: Deus continua agindo por meio de sua Palavra. O Salmo 65 contempla Deus enviando chuva sobre a terra e produzindo abundância. Isaías compara essa chuva à Palavra de Deus, que jamais retorna sem cumprir sua missão. Romanos mostra qual é a maior obra dessa Palavra: ela cria filhos de Deus pelo Espírito Santo. E Jesus explica, na parábola do semeador, que essa mesma Palavra produz frutos abundantes naqueles que a recebem com fé. Tudo começa em Deus. Tudo depende da graça de Deus. Tudo termina para a glória de Deus. Por isso o tema desta mensagem é: “A Palavra de Deus nunca volta vazia: ela produz filhos e frutos para a glória de Deus.”
- Deus semeia sua Palavra com abundante graça – O Salmo 65 é um grande cântico de louvor à bondade de Deus. O salmista contempla os campos verdes, os rios cheios, os cereais crescendo, os animais alimentados e conclui que tudo isso vem da mão generosa do Senhor. Ele declara: ” Fazendo chover, mostras o teu cuidado pela terra e a tornas boa e rica….” (Sl 65.9 – NTLH). Nada acontece por acaso. A chuva cai porque Deus envia. A colheita existe porque Deus sustenta. O alimento chega à mesa porque Deus continua cuidando da criação. Isso é providência divina. Jesus também ensinou isso quando disse que Deus faz nascer o sol sobre maus e bons e envia chuva sobre justos e injustos. Mesmo aqueles que rejeitam o Senhor respiram o ar que Deus criou. Recebem alimento. Têm saúde. Possuem família. Desfrutam das belezas da criação.
Tudo isso é presente de Deus. O Senhor continua derramando bênçãos até mesmo sobre quem ainda vive longe dele. Por quê? Porque Deus deseja conduzir essas pessoas ao arrependimento. Sua bondade é um convite constante para que os pecadores abandonem seus caminhos e se voltem ao Criador. Essa mesma ideia aparece maravilhosamente em Isaías. O profeta afirma: “Porque assim como a chuva e a neve descem do céu e não voltam para lá sem terem regado a terra, sem fazê-la produzir e florescer, para dar sementes ao semeador e pão para quem tem fome, assim também será a palavra que sair da minha boca: ela não voltará para mim sem ter feito o que desejo e sem ter realizado os meus planos.” (Is 55.10-11, NTLH). Que comparação extraordinária! A chuva nunca cai inutilmente. Ela pode demorar. Pode agir silenciosamente. Mas ela cumpre seu propósito. Assim também acontece com a Palavra de Deus. Às vezes um sermão parece não produzir efeito.
Uma aula bíblica parece esquecida. Uma conversa sobre Cristo parece não mudar ninguém. Mas Deus afirma: Minha Palavra nunca volta vazia. Ela sempre realiza aquilo que Deus determinou. Talvez ela converta imediatamente. Talvez prepare alguém para ouvir o Evangelho futuramente. Talvez fortaleça um cristão aflito. Talvez endureça ainda mais quem rejeita a graça (que Deus nos livre disso). Mas ela nunca fracassa. O poder não está na eloquência do pregador. Nem na emoção da mensagem. O poder está na própria Palavra. Como ensina a teologia luterana, os meios da graça são os instrumentos pelos quais Deus realmente age. O Espírito Santo opera por meio da Palavra proclamada e dos Sacramentos para criar e fortalecer a fé. Por isso a Igreja não vive de estratégias humanas, mas da promessa do próprio Senhor.
Isso consola especialmente aqueles que evangelizam. Pais. Mães. Pastores. Professores. Avós. Talvez você esteja orando há anos por um filho. Talvez um amigo rejeite continuamente o Evangelho. Talvez alguém tenha abandonado a igreja. Não pense que a Palavra foi desperdiçada. Ela continua trabalhando. Porque Deus nunca abandona sua própria Palavra. - O Espírito Santo faz da Palavra vida em nós, tornando-nos filhos de Deus – Mas qual é o maior fruto produzido pela Palavra? Romanos responde. O apóstolo Paulo escreve: “Pois aqueles que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.” (Rm 8.14, NTLH). A maior colheita de Deus não são plantações. Nem riquezas. Nem prosperidade. Sua maior colheita são pessoas salvas. Pecadores transformados em filhos. Inimigos reconciliados. Condenados justificados. Mortos espiritualmente feitos vivos. Essa transformação não nasce do coração humano. Ela é obra exclusiva do Espírito Santo. É o Espírito quem utiliza a Palavra para criar fé. É o Espírito quem convence do pecado. É o Espírito quem aponta para Cristo. É o Espírito quem leva ao Batismo. É o Espírito quem preserva o cristão na verdadeira fé. Sem essa obra divina permaneceríamos espiritualmente mortos. Mas Paulo continua: “O Espírito que vocês receberam não faz de vocês escravos e não faz com que tenham medo. Pelo contrário, o Espírito torna vocês filhos de Deus; e pelo poder do Espírito dizemos com fervor: ‘Pai, meu Pai!'” (Rm 8.15, NTLH). Essa expressão merece nossa atenção.
No texto original aparece a palavra Abba, preservada por Paulo juntamente com sua tradução grega. Era uma forma íntima e respeitosa com que os filhos se dirigiam ao pai. Não significa uma intimidade irreverente, mas uma confiança profunda. É o clamor de quem sabe que pertence ao Pai. Antes da fé, o pecador teme a Deus apenas como Juiz. Depois da obra do Espírito, ele continua reverenciando Deus, mas agora o conhece como Pai Amoroso. Quando o cristão ora “Pai nosso”, ele não está apenas repetindo palavras aprendidas. Ele está confessando um milagre. Somente porque Cristo morreu e ressuscitou por nós e porque o Espírito Santo nos uniu a Cristo podemos chamar o Deus santo de “Pai”.
Esse clamor sustenta toda a vida cristã. Quando a enfermidade chega… “Pai, meu Pai.” Quando o desemprego aparece… “Pai, meu Pai.” Quando os filhos se afastam… “Pai, meu Pai.” Quando a morte se aproxima… “Pai, meu Pai.” Não é um grito de desespero vazio. É a oração de quem sabe que pertence à família de Deus. Paulo, porém, faz questão de lembrar que ser filho de Deus não elimina os sofrimentos. Ele escreve: “Somos filhos de Deus. E, se somos filhos, somos também herdeiros; herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo; pois, se sofremos com Cristo, também participaremos da sua glória.” (Rm 8.16-17, NTLH)
Aqui encontramos uma importante correção para a falsa teologia da prosperidade. Ser filho de Deus não significa ausência de cruz. Cristo teve cruz. Os apóstolos tiveram cruz. A Igreja sempre carregou cruz. Também nós carregamos. Mas carregamos com esperança. Porque a cruz nunca é a última palavra. A última palavra pertence à ressurreição. - Quem recebe a Palavra com fé produz frutos que glorificam a Deus e agora então nós chegamos ao Evangelho. Jesus conta a conhecida parábola do semeador. É importante perceber um detalhe. O problema nunca está na semente. A semente sempre é perfeita. A semente é a Palavra. Também não está no semeador. O semeador continua lançando a Palavra generosamente. A diferença está no solo. Jesus explica quatro tipos de terreno.
O caminho: São aqueles que ouvem, mas permanecem completamente fechados. O coração está endurecido. Não há arrependimento. Não há interesse. Logo Satanás remove aquilo que foi ouvido. Na prática, são pessoas que escutam o Evangelho como quem ouve qualquer outra notícia. Entram na igreja. Saem exatamente iguais. Nunca permitem que a Palavra penetre o coração.
O terreno pedregoso: São aqueles que recebem a Palavra com entusiasmo inicial. Tudo parece maravilhoso. Mas não existe profundidade. Quando surgem perseguições, dificuldades ou sofrimento, abandonam a fé. Enquanto tudo vai bem, permanecem. Quando a cruz aparece, desaparecem. Hoje vemos isso facilmente. Há quem permaneça na igreja enquanto Deus parece resolver todos os problemas. Mas basta uma doença, uma crise financeira ou um conflito familiar para abandonar Cristo. A fé não criou raízes.
O terreno cheio de espinhos: Aqui Jesus menciona duas grandes ameaças. As preocupações desta vida. E o engano das riquezas. Não são necessariamente pessoas más. São pessoas ocupadas demais. A Palavra vai sendo sufocada lentamente. Domingo após domingo deixam de ouvir o Evangelho, tipo: no outro final de semana vou a igreja. O trabalho ocupa tudo. O lazer ocupa tudo. As redes sociais ocupam tudo. O dinheiro ocupa tudo. Cristo deixa de ser prioridade. A planta continua viva por algum tempo. Mas já não produz fruto. Quantos cristãos não vivem assim? Ainda conservam uma identidade religiosa. Mas já não há tempo para oração. Nem para o culto. Nem para a Bíblia. Nem para a Santa Ceia. Os espinhos sufocaram a vida espiritual.
A boa terra: Finalmente encontramos aqueles que ouvem e perseveram. Jesus afirma: “As sementes que caíram em terra boa representam as pessoas que ouvem a mensagem e a entendem. Elas produzem uma grande colheita…” (Mt 13.23, NTLH). Observe novamente. Primeiro recebem. Depois produzem. Os frutos nunca são a causa da salvação. São consequência da fé. É exatamente isso que a teologia luterana sempre ensinou: somos justificados unicamente pela graça, mediante a fé em Cristo, mas essa fé jamais permanece estéril. Ela produz boas obras como fruto natural da nova vida concedida por Deus. Quais são esses frutos? Amor. Perdão. Misericórdia. Honestidade. Generosidade. Pureza. Paciência. Serviço. Fidelidade. Perseverança. Vida de oração. Participação na comunhão da Igreja. Educação cristã dos filhos. Testemunho diante do mundo. São frutos produzidos pelo Espírito por meio da Palavra. Há ainda outro detalhe belo. Jesus fala em trinta, sessenta e cem por um. Nem todos produzem igualmente. Nem todos possuem os mesmos dons. Nem todos servem da mesma forma. Mas todos aqueles que pertencem a Cristo produzem frutos. Alguns ensinam. Outros visitam enfermos. Outros cantam. Outros ajudam discretamente. Outros sustentam a missão. Outros consolam aflitos. Outros evangelizam. Mas todos glorificam a Deus. Assim acontece na Igreja. Não competimos uns com os outros. Cada fruto pertence ao Senhor. - Precisamos aplicar isso na prática – Hoje Deus faz uma pergunta muito pessoal. Que tipo de solo tem sido o meu coração? Existem áreas endurecidas? Existem pedras escondidas? Existem espinhos crescendo silenciosamente? Todos nós encontramos algo dessas quatro terras dentro de nós. Nossa velha natureza resiste à Palavra, busca atalhos, distrai-se com as preocupações e se deixa seduzir pelos falsos deuses deste mundo. Por isso precisamos diariamente de arrependimento.
A boa notícia é que Cristo não abandona terrenos difíceis. Ele continua semeando. Continua chamando. Continua perdoando. Continua enviando seu Espírito. Mais uma vez Deus está lançando sua Palavra sobre nós. Mais uma vez Cristo distribui sua graça. Mais uma vez o Espírito trabalha em nosso coração. Mais uma vez somos lembrados de que pertencemos ao Pai. Diz o nosso Pai: “A palavra que sair da minha boca… não voltará para mim sem ter feito o que desejo.” (Is 55.11, NTLH). Essa promessa sustenta toda a missão da Igreja.
Então com isso podemos concluir que; os quatro textos de hoje formam uma maravilhosa sequência. O Deus que envia a chuva sobre a terra é o mesmo Deus que envia sua Palavra ao mundo. A Palavra nunca volta vazia. Ela cria fé. O Espírito Santo transforma pecadores em filhos que podem dizer com confiança: “Pai, meu Pai!” E esses filhos, alimentados continuamente pela Palavra e pelos Sacramentos, produzem frutos que glorificam ao Senhor. Por isso, não desanimemos. A Igreja nunca dependeu do poder humano. Ela vive da Palavra que nunca falha. Por isso oremos com fervor pedindo que Deus nos preserve firmes em Cristo durante os dias de alegria e nos dias de sofrimento. E que, pela ação constante do Espírito Santo, nossa vida produza frutos abundantes para a glória de Deus, até o dia em que participaremos da colheita eterna no Reino dos Céus. Amém.

