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A Gazeta do Amapá > Blog > Colunista > Gil Reis > Cabos submarinos: Fortaleza privilegiada
Gil Reis

Cabos submarinos: Fortaleza privilegiada

Gil Reis
Ultima atualização: 9 de maio de 2026 às 20:40
Por Gil Reis 2 meses atrás
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Gil Reis -​ Consultor em Agronegócio | Foto: Arquivo Pessoal.
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Qual o privilégio de Fortaleza?

Os Cabos Submarinos são as Veias Invisíveis que seguram a Internet e a Geopolítica do Século 21. Você manda um meme para um amigo nos EUA. Em 150 milissegundos ele chega lá. Parece mágica. Não é. É física. 99% do tráfego internacional de internet não viaja por satélite. Viaja pelo fundo do mar, dentro de cabos do tamanho de uma mangueira de jardim. São os cabos submarinos. A infraestrutura mais importante que você nunca vê.


Como funciona: internet em tubo
Um cabo submarino moderno tem a espessura de um braço na praia e afina para 2 cm no fundo do oceano. Por dentro, de 8 a 24 pares de fibra óptica. Cada par é vidro puro, mais fino que um fio de cabelo. Por ali passa luz. E luz carrega dado. Um único cabo atual, como o Grace Hopper do Google, move 350 terabits por segundo.

Isso é 17,5 milhões de vídeos em 4K ao mesmo tempo. E tem mais de 600 cabos ativos no mundo, somando 1,4 milhão de km. Dá para dar 35 voltas na Terra. Os cabos ficam no fundo do mar, entre 3 mil e 8 mil metros de profundidade. Na costa, são enterrados para proteger de âncoras e redes de pesca. Em alto mar, ficam soltos no leito. Duram 25 anos. Depois, são aposentados ou substituídos. Nas pontas ficam as estações de ancoragem. Galpões sem graça em praias que recebem o cabo e conectam com a rede terrestre. O Brasil tem pontos principais em Fortaleza, Rio e Santos. Por isso Fortaleza é o hub digital do país. Quem controla a praia, controla o dado.


Uma história de 170 anos
O primeiro cabo telegráfico cruzou o Atlântico em 1858. Levava 17 horas para mandar 98 palavras da Rainha Vitória. Quebrou em três semanas. Em 1866, o segundo cabo deu certo. A mensagem entre Londres e Nova York caiu de 10 dias de navio para minutos. Desde então, cabos definem poder. Na Primeira Guerra, o Reino Unido cortou os cabos alemães no primeiro dia. Sem telegrama, sem império. Na Guerra Fria, os EUA grampearam cabos soviéticos com submarinos. A operação se chamava Ivy Bells. Hoje a lógica é a mesma. Só que em vez de telegrama, passa Pix, Swift, WhatsApp, TikTok e bolsa de valores. Se o cabo apaga, a economia para. Em 2008, âncoras cortaram cabos no Mediterrâneo.

Egito e Índia ficaram com internet por 90 por dias. Em 2022, Tonga ficou um mês offline depois que um vulcão rompeu o único cabo da ilha.


Quem manda no fundo do mar
Antigamente, cabos eram de consórcios de operadoras. Telefônica, AT&T, Orange dividiam custo e banda. Nos últimos 10 anos, as Big Techs tomaram o controle.

Google, Meta, Microsoft e Amazon são donas ou sócias de mais da metade dos novos cabos. Por quê? Tráfego. Em 2012, as techs usavam 10% da banda submarina.

Hoje usam 71%. Você assiste YouTube, Netflix e faz backup no Drive. Tudo isso cruza oceano. Se dependessem de operadora, pagariam pedágio caro e brigariam por prioridade. Então constroem o próprio asfalto. O Google tem cabo chamado Curie de Los Angeles ao Chile. Tem o Equiano de Portugal à África do Sul. Meta tem o Africa, que vai dar a volta no continente africano. São projetos de 300 a 500 milhões de dólares cada.

Dinheiro de troco para quem vale trilhão. Isso muda a geopolítica. Antes, governo controlava comunicação. Agora, a nuvem da Califórnia decide por onde seu dado passa. E se o cabo é privado, quem garante que não tem grampo? A lei é nebulosa e o fundo do mar é terra de ninguém.

O novo campo de batalha: EUA x China
Cabos viraram Guerra Fria 2.0. Os EUA barraram cabos que passavam pela China ou tinham empresa chinesa como sócia. Em 2020, vetaram o Pacific Light Cable Network entre Los Angeles e Hong Kong.

Motivo: segurança nacional. A China respondeu com o PEACE Cable, de Paquistão para França, passando pelo Chifre da África. E com o HMN Tech, estatal que fabrica e instala cabos. A briga é por rota e por tecnologia. Quem lança o cabo escolhe o caminho dos dados. Quem tem o mapa, tem vantagem. Em 2023, dois cabos no Mar Vermelho foram danificados. Suspeita recaiu sobre rebeldes Houthis. Em 2024, cabos no Mar Báltico foram rompidos. Dedo apontado para navio russo. Provar é quase impossível. O mar é fundo, escuro e sem câmera. A Europa criou lei para proteger cabos. A OTAN faz patrulha com submarino. O Brasil discute levar o tema para a ONU. Porque se guerra mundial começar, o primeiro tiro será na fibra óptica.


Ameaças reais: de tubarão a tsunami
70% das falhas são causadas por atividade humana. Âncora de navio e rede de pesca são os vilões. Terremoto e vulcão vêm em segundo. Em 2006, um tremor em Taiwan rompeu 9 cabos. A Ásia ficou semi-offline por semanas. Tubarão morde cabo? Já aconteceu. Fibra antiga soltava campo eletromagnético que atraía peixe. Hoje o cabo tem capa de aço e kevlar. Mesmo assim, de vez em quando a natureza vence. A ameaça que cresce é climática.

Aquecimento do oceano muda corrente e causa deslizamento submarino. Degelo libera metano do fundo e desestabiliza solo. Eventos extremos vão aumentar. E cada reparo custa 1 a 3 milhões de dólares e demora semanas, porque precisa de navio especializado. Só existem 60 no mundo.


Brasil no jogo: de Fortaleza para o mundo
O Brasil é privilegiado. Fortaleza é um dos 10 pontos mais conectados do planeta. Chegam cabos da Europa, África e EUA. De lá, o dado sobe para o Sudeste. Por isso data center da AWS, Oracle e Microsoft vai para lá. O cabo EllaLink liga Fortaleza a Lisboa com latência de 60 ms. É o primeiro direto Brasil-Europa sem passar pelos EUA. Soberania digital. O governo quer mais cabos para não depender de Miami. Tem também o plano de cabos na Amazônia.


Até 2026, 70 novos cabos vão entrar em operação. Capacidade vai triplicar. A demanda de IA, vídeo e nuvem não para. Cabos novos já vêm com 24 pares de fibra e 25 terabits por par. É dado que não acaba mais. Mas junto vem risco. Quanto mais a economia depende de cabo, mais vulnerável fica. Um ataque coordenado em 10 pontos pode derrubar continentes. Não precisa míssil. Precisa âncora e coordenada GPS. Por isso, país esperto diversifica rota, protege estação e trata cabo como infraestrutura crítica, igual usina e aeroporto. Porque é. Sem cabo, não tem Pix, não tem telemedicina, não tem comando de drone. Conclusão: A internet é física


A gente acha que a nuvem mora no céu. Mora no fundo do mar. Cabos submarinos são a globalização em tubo. Carregam 10 trilhões de dólares por dia em transação financeira. Carregam sua série, sua call de trabalho, sua foto de férias. São invisíveis, baratos perto do valor que movem e frágeis como vidro. E viraram peça central da disputa entre EUA, China e Big Tech. A próxima década vai decidir quem desenha o mapa da internet. Da próxima vez que seu vídeo carregar instantâneo, lembra: tem um tubo de vidro no breu do Atlântico, 4 mil metros abaixo, fazendo isso acontecer. E tem muita gente brigando para ser dona dele.


A próxima vez que o leitor enviar uma mensagem ou conversar via WhatsApp tem que lembrar os caminhos que são percorridos.


“A internet é muito mais que uma tecnologia. É um meio de comunicação, de interação e de organização social.” Manuel Castells (1942), sociólogo espanhol.

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